Virginia Woolf renasce nos 70 anos de sua morte

Hoje faz 70 anos que a escritora Virginia Woolf morreu. Naquele fatídico 28 de março de 1941, ela se viu atormentada pela iminência de mais uma crise nervosa, e assim preferiu encher os bolsos de suas roupas com pedras e se afogar no rio Ouse, em Sussex, interior da Inglaterra. Virginia deixou uma carta ao marido: “Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer”.

Escritora representou o modernismo na Inglaterra

A morte trágica jogou um véu sobre a obra literária. A escritora se transformou em uma personagem mais famosa que os livros. Contribuiu para isso também a bissexualidade assumida, que fez crescer as lendas em torno de seu nome. O jornal inglês ‘The Independent’ publicou uma matéria no início deste mês sobre o lançamento de novas edições dos títulos ‘Entre os atos’ e ‘As ondas’, pela Universidade de Cambridge, e afirmou que Virginia está ressurgindo “como uma escritora que tinha astúcia política, consciência histórica, educação e talento, mais do que se imaginou até então”.

A escritora é um dos exemplos do que foi o modernismo na literatura inglesa do começo do século 20. Ela pertenceu ao grupo de escritores e intelectuais que ficou conhecido como Círculo de Bloomsbury, em referência à localidade perto de Londres em que eles se encontravam. Havia uma identidade sobre política, economia e literatura no grupo nos anos 20 – o economista John Maynard Keynes era um de seus participantes.

O mais famoso livro de Virginia Woolf é ‘Orlando, uma biografia’, publicado originalmente em 1928. O romance narra a trajetória, desde 1500, de um rapaz bonito e atraente, que pertencia à corte inglesa e vive mais de 300 anos. A certa altura, no entanto, servindo seu reino como embaixador na Turquia, Orlando tem um profundo sono durante dias e depois desperta como uma mulher.

Virginia dedica a obra à amiga e amante Victoria Sackville-West, que por ser mulher havia sido impedida de herdar um castelo que pertencera por séculos à sua família. Inspirada em fatos e pessoas reais, Virginia constrói assim uma crítica da sociedade inglesa, com manifestações de ironia e irreverência. O movimento feminista abraçou ‘Orlando’ como uma obra em favor da igualdade dos sexos e até como alegoria da superioridade da mulher.

Mas o livro é mais do que isso. Não apenas funde os gêneros de narrativa do romance, da biografia e do relato histórico, como revela uma aguda sensibilidade para colocar em questão a identidade humana. Na voz de Virginia Woolf guardada no livro, o ser humano é alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo, uma perspectiva que pode dar muito a pensar.

Orlando, uma biografia,

Virginia Woolf, tradução de Cecília Meireles, editora Nova Fronteira, 198 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br

Sobre Helder Lima
Jornalista, quase morsa, louco por livros usados, rock, psicanálise, gastronomia...Duas vezes no festival de Águas Claras

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