Salão de espelhos evoca imagens da Amazônia

Loureiro é conhecido por sua obra poética

Um aspecto que torna a literatura contemporânea interessante é o fato de os escritores abandonarem as delimitações entre imaginação e realidade. Hoje, há o exercício de uma liberdade de criação que também faz explodir as categorias de gêneros, como conto, romance, poesia, ensaio, monografia… O compromisso com aquilo que se deseja expressar para emocionar o leitor fala mais alto.

No jogo de possibilidades da linguagem, um livro pode trazer outros livros dentro de si, de diferentes gêneros. Tomei assim o romance de estreia do poeta João de Jesus Paes Loureiro, intitulado ‘Café Central: o tempo submerso nos espelhos’ como um documento, uma referência da paisagem e da cultura da floresta amazônica, sobretudo no que tange ao espetáculo de viajar no leito de rios como o Tocantins, que o autor descreve com lirismo e riqueza de detalhes.

Ao percorrer as páginas, tive vontade de me aventurar em um daqueles barcos a vela que vão de Abaetetuba, no Pará, cidade natal de Loureiro, até a capital Belém, às margens da baía de Marajó, que alarga o curso do Tocantins ao encontrar o mar. As garças em revoada, os marapatás – pedaços da margem que se desprendem e flutuam no rio –, a interação com as comunidades ribeirinhas, o peixe farto servido com farinha são elementos que formam o retrato de um País desconhecido para os brasileiros que habitam as metrópoles.

No romance e na vida real, ‘Café central’ foi o espaço de um salão de espelhos em Belém, densamente decorado com o espírito da Belle Époque, que abrigava intelectuais, artistas, jornalistas, estudantes e outros bichos durante os 70, os anos duros da ditadura militar, em que as principais notícias, censuradas para os jornais, corriam de boca em boca.

O narrador é um militante de esquerda que está sendo procurado pela polícia da ditadura, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Por isso, ele se esconde em um quarto contíguo ao Café e nas altas horas da madrugada frequenta o salão fechado, onde os espelhos, em formações como num caleidoscópio, evocam suas memórias, criando uma alegoria, ou uma representação de forma figurada, em torno da fusão do real e imaginário nas nossas opiniões e visões de mundo.

Na época da ditadura, os espelhos do Café Central traziam marcas de decadência, como rachaduras e áreas embaçadas que serviam de combustíveis para a profusão de imagens evocadas pelo narrador. A partir do refugio inicial no Café, o livro se desenvolve em torno das viagens por rios que o narrador tem que fazer para se esconder da polícia repressora, o que abre a possibilidade de conviver com o homem nesse universo encantado pela natureza. Vale destacar que o mito e a realidade que se misturam nas lendas das populações ribeirinhas também ecoam a alegoria do autor e enriquecem o romance.

 

Café Central: o tempo submerso nos espelhos,

João de Jesus Paes Loureiro, editora Escrituras, São Paulo, 2011, 381 págs.

Foto: Divulgação

Sobre Helder Lima
Jornalista, quase morsa, louco por livros usados, rock, psicanálise, gastronomia...Duas vezes no festival de Águas Claras

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