Ilusão e morte nas transformações do amor

Martha Medeiros mergulha no tema do amor para enfrentar suas contradições

A morte do amor é o tema que conduz o livro ‘Fora de mim’, da escritora gaúcha Martha Medeiros. Lançada no ano passado, essa novela mostra o percurso e as reflexões de uma mulher perto dos 40 anos, que vive uma paixão avassaladora depois de terminar um casamento de 16 anos.

A narrativa começa por meio de uma metáfora, um acidente de avião, que é talvez tão grave quanto o fim de uma relação para quem está apaixonado. Ao baque da queda, segue-se o estado vegetativo, de morta-viva, em que permanece a narradora, escrevendo um discurso informal e melancólico dirigido a ‘você’, o amante e também o leitor do livro, que ocupa a posição do outro no discurso que é estabelecido.

Depois de experimentar alguma recuperação do impacto do abandono, a suposta narradora começa então a situar o leitor sobre suas desventuras amorosas, deixando entrever que sua história é na verdade comum a todos nós, que vivemos um tempo em que as relações estáveis tendem a sucumbir.

Sintoma desta velocidade com que os casais começam e terminam, a narradora conhece sua grande paixão no mesmo dia em que se separa, e depois prossegue em outros relacionamentos sem que haja o rótulo ‘felizes para sempre’.

Essa vulnerabilidade do amor é também tema do livro ‘Amor líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos’ (Jorge Zahar Editor), do sociólogo Zygmunt Bauman, em que ele investiga esse problema no contexto dos dias atuais. A falta de identidade duradoura entre as pessoas afeta todas as formas de “amor”, como a amizade e as relações de parentesco, a ponto de termos hoje dificuldade em tratar o outro com humanidade, sobretudo em lugares públicos.

O amor, assim como o ódio, é por excelência um sentimento humano. No livro de Martha, esse aspecto se mostra com o amadurecimento que a narradora experimenta construindo seus relacionamentos. Do estado inicial de depressão, a narradora abandona os valores de consumidora de shopping para encontrar um parceiro com mais afinidade, ainda que seja alguém fora dos padrões vigentes.

O livro faz assim um movimento da loucura, do ‘fora de mim’, do ser aturdido pela morte real da paixão, para uma posição em que a narradora percebe que, ainda que haja alguma consciência para viver uma relação a dois, é impossível definir o amor. É como se houvesse a palavra e faltasse seu significado. “Não consigo imaginar nada mais satisfatório do que amar, e mesmo não sabendo o que o amor significa, sei o que representa. É o que nos faz, no meio da multidão, destacar alguém que se torna essencial para o nosso bem-estar, e o nosso para o dele”, escreve.

O livro mostra também com ironia a eterna supremacia das mulheres sobre os homens, já que a narradora se aproxima da mulher que se casa com seu ex-namorado e experimenta entrar na intimidade alheia até que se vê envolvida em uma saia justa graças à típica falta de caráter no mundo masculino.

 

Fora de mim,

Martha Medeiros, editora Objetiva, RJ, 131 págs.

Foto: Divulgação

Sobre Helder Lima
Jornalista, quase morsa, louco por livros usados, rock, psicanálise, gastronomia...Duas vezes no festival de Águas Claras

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