O retorno do filho rejeitado pelo ditador

Luíz Horácio explora a linguagem do pampa (foto: Divulgação)

A Comissão da Verdade instalada na semana passada pela presidente Dilma terá a missão de reescrever a história do País no período de 1946 a 1988, tirando a limpo fatos e personagens envolvidos. É uma iniciativa sujeita a polêmicas e pressões, mas que resgata o direito do cidadão ter acesso a informações para formar livremente sua opinião.

Na literatura, o tema da ditadura militar, de 1964 a 1985, é fecundo. Os traumas, violações dos Direitos Humanos, as confabulações e atos de tortura formam o retrato de um Brasil que a cultura de massa ignorou e esqueceu, com exceção da literatura e do cinema.

Ainda hoje a produção literária repercute as angústias e enigmas desse período, como é o caso do romance ‘Pássaros Grandes Não Cantam’ (2010), do escritor Luíz Horácio Pinto Rodrigues, gaúcho de Quaraí, município da fronteira com o Uruguai. O livro completa uma trilogia com ‘Perciliana e o pássaro com alma de cão’ (2005) e ‘Nenhum pássaro no céu’ (2008).

A história se desenvolve em torno de Horácio, um estancieiro da região de Rosário e Livramento, no pampa gaúcho, que foi colaborador da ditadura militar. O livro desperta a curiosidade do leitor pelo fato de mostrar como pensa um ser que se constitui entre preconceitos, possessões, ódios e arrogâncias.

O romance também desnuda o preconceito contra os negros, que ainda hoje persiste na cultura, como herança arcaica dos tempos da escravidão, mas faz isso não sem explorar a relação ambígua que se coloca no confronto de raças no País. “Me parece que usted gosta deles, mas acha que não deve gostar?”, indaga o vaqueiro Amâncio a Horácio, referindo-se aos negros.

Essa relação ambígua permeia o romance, que se desdobra a partir de um caso de amor entre Horácio e Ana Maria, uma negra da estância vizinha, que engravida e por isso é expulsa da região, tendo de reconstruir a vida no Rio de Janeiro.

O retorno do filho que resultou da união pretensamente indesejada marca o tempo presente do romance, é quando Horácio começa a se defrontar com a verdade de sua existência. Armando, o filho rejeitado, surge na história como que para protestar contra a ausência de pai, uma carência que é um verdadeiro sintoma da cultura hoje.

O romance também tem um caráter regional, e por isso é construído em ‘gauchês’, com as expressões comuns do homem do pampa. Esse aspecto enriquece o livro com ironia, é uma contribuição para ilustrar o conhecimento de quem está cansado de linguagem globalizada que sufoca a subjetividade nos dias de hoje.

Pássaros Grandes Não Cantam,

Luíz Horácio, Global Editora, São Paulo, 2010, 220 págs.

A loucura e poesia da infância na velhice

Karla foi voluntária em abrigo por dois meses (Foto: Divulgação)

O mundo é dominado pelos jovens e adultos. As crianças e os idosos são atores coadjuvantes e isso indica que os valores dominantes são os da faixa dos concidadãos que produzem, estudam, ganham dinheiro e dizem o que é certo ou errado.

Mas essa lógica não funciona em ‘Minha vida de brinquedo’, romance de estreia da escritora independente Karla Lima, que coloca em cena os dramas e histórias dos moradores de um abrigo para idosos, narrados por uma menina, filha da nova diretora que assume depois de a instituição ter sido vítima de um administrador insensível.

A história começa com a morte de Ethel Shimmer em 1966, atropelada ao sair do cartório após lavrar seu testamento. Este determinava que a fortuna deixada pela viúva sem filhos fosse empregada na construção de um lar para idosos que tivesse por princípio tratar todos com respeito e dignidade.

Com sensibilidade poética e conhecimento das paixões humanas, Karla coloca o leitor frente a frente com a velhice, tema tantas vezes esquecido, ou abertamente rejeitado, já que há muitos idosos em situação de abandono por seus familiares. Amarrando a história com a perspectiva da menina, Karla revela retratos sobre a busca de nossos desejos de infância até a morte.

“Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária”, afirma a escritora, que vive em São Paulo com a parceira e esposa Pya Lima, responsável pelo título, capa, projeto gráfico e argumento (criança que mora em asilo).

No abrigo, cada personagem vive sua própria loucura, como a ex-vedete que troca de peruca várias vezes ao dia, ao sabor de seu estado de espírito, ou o botânico que conversa com as plantas em uma língua que inventou. “Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor seria evitada”, afirma a escritora.

Para elaborar a obra, Karla viveu dois meses como voluntária em um asilo. “Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes e outros detalhes”. Karla também conta que escreveu o romance em seis meses, trabalhando cinco dias por semana, ao ritmo de quatro páginas por dia, permeadas por algumas angústias características do processo criativo.

A capa do livro, simulando um caderno antigo, faz referência ao ‘caderno de teorias’ da menina, que diariamente apresentava à mãe um texto sobre os acontecimentos do dia no abrigo. A obra pode ser comprada pela internet, ou nas livrarias Cultura e da Vila.

Leia a íntegra da entrevista por e-mail com a escritora Karla Lima

No livro, você coloca em evidência o mundo dos idosos, que representam um estrato social esquecido, afastado, rejeitado ou invisível da sociedade. Você diria que trazer à tona os personagens e as questões esquecidas é o próprio papel do escritor?

Sim, sem dúvida esse é um dos papéis dos escritores, mas não só nosso. Toda forma de arte é um colírio comportamental, porque tudo que faz pensar ajuda a enxergar melhor e enxergar, acho eu, é o primeiro passo para agir. Também acredito que o escritor tenha outros papéis, como despertar a curiosidade, alimentar a fantasia, promover o hábito da boa leitura, educar para outras realidades, validar certos anseios, respaldar crenças e atitudes minoritárias ou incompreendidas…

Fale um pouco da história do livro, do ponto de vista de sua inspiração e transpiração… Quanto tempo você levou para escrevê-lo, como sua rotina teve de se transformar? Como surgiu a ideia?

O argumento inicial (criança que mora em asilo) foi sugerido pela minha mulher, Pya Lima, que é responsável também pelo título e pelo projeto gráfico, incluindo a capa.

Para me preparar, fui voluntária em um asilo por dois ou três meses. Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes etc.

Como sou autônoma, tenho bastante controle sobre minha rotina. Levei seis meses para escrever o MVB e nesse período me dediquei exclusivamente a ele cinco vezes por semana (às quintas-feiras em geral não trabalho, só leio o dia inteiro; aos domingos, descanso). Em um dia produtivo, conseguia redigir até quatro páginas (ô, momento sublime!) – mas também houve muitas ocasiões em que nenhuma linha decente saiu (ô, angústia!). Releio e reescrevo cada frase vezes sem conta, chego mesmo a encenar, sozinha, algumas situações; porém, uma vez encontrada a forma que julgo ideal, não torno a mexer. Se acredito no que produzi, e só avanço quando acredito, sou bem pouco aberta a sugestões e pitacos: defendo meu texto com uma ferocidade animal! Mas, dizia eu, a descoberta da expressão adequada é o momento de glória, a busca infrutífera é desesperadora (posso gastar um dia inteiro procurando determinada palavra) e a alternância entre esses dois estados é muito, muito cansativa. Quando o arquivo finalmente seguiu para a gráfica, eu estava emocionalmente exausta. E também triste pela separação: durante semanas, senti saudade dos personagens; ontem, numa livraria, vi um senhor que é a cara do Antero. Às vezes, sonho com a Bárbara.

E a opção de criar uma edição de autor? Você procurou as editoras e o que aconteceu? O livro pode ser comprado só nas livrarias da Vila e Cultura?

Este é meu terceiro livro e todos foram publicados como edição de autor. Apenas no primeiro eu procurei uma editora. Não gostei do modelo, lancei como independente, funcionou tão bem que dois anos depois fiz uma nova tiragem, funcionou de novo e repeti com o segundo livro… Não havia razão para, no terceiro trabalho, me submeter a um contrato. Gosto de ter controle sobre a produção, a distribuição e a divulgação. Na eventualidade de alguém ter interesse em adaptar para outra mídia (cinema, teatro ou outro), prefiro ter a palavra final.

Ser independente me dá liberdade total quanto a forma, conteúdo, preço e comercialização, e com isso respondo a outra pergunta. No site ‘litros de letras [veja endereço abaixo], ofereço para download gratuito o Armário sem Portas e o Ziguezagueando pelo Islã; ora, se eu estivesse amarrada a uma editora, poderia fazer isso? Nesse mesmo site também é possível comprar o ‘Minha Vida de Brinquedo’ via Pagamento Digital (boleto, cartão de crédito, transferência online).

Quanto aos pontos de venda: sim, por enquanto apenas na Vila e na Cultura, o que é pouco, mas não me preocupa: desde 2006, nossas vendas pessoais superam a venda em livrarias.

Hoje, o senso comum é um tanto opressor, visto que a mídia tenta impor visões de mundo para o sujeito. Nesse sentido, escrever seria o mesmo que navegar contra essa corrente e abrir ao leitor a oportunidade de construir outro senso?

Às vezes, porque alguns livros só fazem reforçar a obediência ao senso comum, só agravam a sujeição do leitor a um padrão medíocre de vida e a um horizonte pobre de sonhos. Outros livros, entre os quais tenho a esperança de poder incluir o meu, fazem o oposto: relembram, instigam, jogam luz sobre cantos em geral pouco iluminados do ser. Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor não se evitaria! E se os adultos cuidassem das crianças como um dia desejaram ser cuidados, que novos adultos estaríamos preparando! Equilibrados, saudáveis, amorosos, confiantes… O senso comum é instaurado pelos adultos. Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária.

Acredito no poder da literatura, sei por experiência pessoal como uma obra pode mudar uma percepção, transformar insegurança em esperança, rejeição em pertença, dúvida em descoberta… E muito mais.

Minha vida de brinquedo,

Karla Lima, edição da autora, SP, 2011, 236 págs.

Onde encontrar – www.litrosdeletras.com.br.

A tatuagem no Rio de João

Em ‘A alma encantadora das ruas’, João do Rio vê os meninos que fazem tatuagem nas ruas:

“— Quer marcar?

Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus, as mãos pouco limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor, um rapazola louro, com uma dourada carne de adolescente, sentado a uma porta, indagou:

— Por quanto?

— É conforme, continuou o petiz. É inicial ou coroa?

— É um coração!

— Com nome dentro?

O rapaz hesitou. Depois:

— Sim, com nome: Maria Josefina.

— Fica tudo por uns seis mil réis.”

Um pouco mais adiante…

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou to tahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha da pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.

Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além dos golpes sarados com o pó preservativo do mau olhado, usam figuras complicadas. Alguns, como o Romão da Rua do Hospício, têm tatuagens feitas há cerca de vinte anos, que se conservam nítidas, apesar da sua cor — com que se confunde a tinta empregada.”

Resumo da obra:

http://livroseideias.wordpress.com/2011/10/24/espaco-vivo-onde-a-linguagem-se-transforma/

Download da obra:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action&co_obra=2051

Pesquisa revela queda de leitores no País

Veja as considerações finais da terceira edição da pesquisa ‘Retratos da leitura no Brasil’, divulgada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), no dia 29 de março:

O índice de penetração de leitores oscilou negativamente, da 2ª edição, realizada em 2007, para esta, passando de 55% para 50% [Base: População brasileira com 5 anos ou mais 2007(173 milhões)/2011(178 milhões)].

•Essa oscilação ocorreu em praticamente todas as regiões brasileiras, com exceção do Nordeste, onde permaneceu estável.

Norte: de 55% para 47%

Nordeste: de 50% para 51%

Centro-Oeste: de 59% para 43%

Sudeste: de 59% para 50%

Sul: de 53% para 43%

•O que ajuda a explicar a atual posição do Nordeste frente às demais regiões é o grande o número de pessoas estudando atualmente, sobretudo nas faixas etárias onde a leitura é considerada mais frequente (dos 5 aos 17 anos, período escolar).

Além disso, houve uma parcela expressiva de moradores nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste que declara ser leitora de livros indicados pela escola e outra parcela leitora de livros lidos apenas parcialmente, sobretudo no Nordeste e Centro-Oeste. Em contraponto com a região Sul e Sudeste que leram mais livros inteiros e também por iniciativa própria. Os novos critérios de composição do índice contribuíram então para o desempenho do Nordeste, onde há maior proporção de leitura de livros escolares e em partes.

•Assim como nas edições anteriores, a pesquisa confirma as principais correlações com a leitura: escolaridade, classe social e ambiente familiar. Quanto mais escolarizado ou mais rico é o entrevistado, maior é a penetração da leitura e a média de livros lidos nos últimos três meses.

Para consultar a pesquisa completa:

http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/dados/anexos/2834_10.pdf

Estética de Jorge Amado divide a crítica

Por Saulo Lance*

Jorge Amado: centenário de seu nascimento será comemorado em agosto

A história do Brasil é permeada pela formação de grupos identitários paralelos ao Estado, que se constituem como reação à violência e exclusão emanadas pelo poder oficial e como resgate da identidade ameaçada, entre outros fatores. Os quilombos no tempo da colonização, o cangaço no sertão nordestino nos séculos 19 e 20, a malandragem no contexto do Rio de Janeiro na metade do século 20, a revolta de Canudos na Bahia, enfim, não faltam exemplos desse traço emblemático da cultura do País, que atualmente se remodela por meio do crime organizado.

Essas organizações têm como ponto central um código interno de regras que exige de seus participantes, marginalizados pela sociedade, lealdade e obediência cega à liderança estabelecida. Na literatura, há muitos exemplos de obras que exploram o estado paralelo. O romance ‘Capitães da areia’, de Jorge Amado, publicado em 1937, é um deles.

A obra é ambientada em Salvador, Bahia, nos anos 30, onde ocorria uma epidemia de varíola, gerando discriminação, um ambiente hostil e, no caso de duas personagens, Dora e Zé Fuinha, a perda dos familiares e o abandono. Outro problema era a polícia, que tinha um papel coercivo grande, intensificando a hostilidade do meio e perseguindo as crianças como se fossem adultos. Pedro Bala, o chefe dos capitães, sobrevive nesse ambiente hostil, sendo que seu pai, do qual não tem muitas informações, foi morto num confronto entre operários e a polícia.

Os críticos da obra fazem leituras opostas. Há aqueles que ressaltam seu viés revolucionário, afirmando uma defesa da postura comunista de seu autor, lembrando fatos como a queima de 808 exemplares do romance em praça pública, em 1937, às vésperas do Estado Novo, e a atuação de Amado como militante no partido comunista, o PCB. Pedro Bala, o protagonista, repete o destino do pai no que diz respeito a seu engajamento social, tornando-se líder entre sua comunidade, o que chegou a ser interpretado como apologia ao comunismo.

Outros, no entanto, afirmam a existência de uma imagética apelativa e populista, atacando o autor quando ele se diz “um baiano romântico e sensual”, apoiando tal argumentação na ausência de formalidade, característica de sua escrita, e na escolha dos personagens. Convivem na obra duas possibilidades de leitura: “uma abordagem ancorada primeiro na tradição popular nordestina – a literatura de cordel, os cantadores – e, depois, na estética do realismo crítico e da denúncia”, como afirma Eduardo Assis Duarte, professor universitário, jornalista e crítico literário, e de uma produção mais ligada ao regionalismo, com o pitoresco e a caracterização estereotipada, como afirma Alfredo Bosi, professor universitário, historiador da literatura brasileira e crítico.

Para os que encaram a obra da primeira forma, ela é uma tentativa de desmistificação do estado paralelo. Portanto, a partir da apresentação de figuras obscurecidas pela sociedade, já que enquadradas sob a designação genérica de “delinquentes”, o autor opera uma torção de valores significante. É a partir da exploração do mundo de cada capitão da areia que seus motivos e suas angústias, estas muito próximas às do “cidadão de bem”, contornam e dão sentido à violência praticada. Para os capitães, o governo e as leis são a organização comunitária do trapiche que vivem e a liberdade é encontrada nas ruas por meio de tal organização que garante proteção e senso comunitário.

A questão vista por tais críticos aqui é sobre a eficácia da discriminação e da coerção em relação à marginalidade, à qual o autor responderia, mostrando que por traz dos delinquentes há um ser político e um ser de privações como qualquer outro, tendo a sociedade um papel grande na geração de tudo isso.

Os críticos que apontam para um caráter regionalista da obra afirmam que Jorge Amado “soube esboçar largos painéis coloridos e facilmente comunicáveis que lhe franquearam um grande e nunca desmentido êxito junto ao público”, como diz Bosi. Para críticos dessa leitura, é por este caráter pitoresco e por sua linguagem, que é “descuido formal a pretexto de oralidade”, que seu ingresso na televisão e teatro foi garantido, pois são apelos populistas onde há ainda a prioridade da imagem.

É claro que seu viés político não pôde ser omitido, mas aqui sua face se mostra suavemente, segundo a necessidade de cada personagem que, “vez por outra, emprestaria matizes políticos”. Porém, o aspecto central nesses personagens, dado o caráter pitoresco do regionalismo, é que eles não são de fato: são meras imagens, formas gerais dos quais se perde toda a particularidade. Dessa forma, não é a sociedade em sua organicidade o objeto analisado, como pensam os primeiros críticos citados, mas uma sociedade espelhada turvamente, genérica, estereotipada, com seres folclóricos.

Mas o fato é que com sua escrita Jorge Amado conquistou prêmios e, mais que isso, um lugar privilegiado como escritor na história, tendo incentivado grande quantidade de novos leitores, sendo este um projeto de sua trajetória. Seus temas também indicam a contemporaneidade vivida pelo autor, que escrevera no período do modernismo, sendo ele convencionalmente associado à segunda fase, entre a década de 40 e a de 50, fase marcada pelo regionalismo, a proposta crítica e o surgimento do romance urbano-psicológico, entre outras.

Teve releituras em outras linguagens como televisão, cinema e teatro, além de seus textos terem sido traduzidos em 49 idiomas. Este ano é o centenário de seu nascimento, cuja data é 10 de agosto de 1912, o que motivou a reedição de duas de suas obras, ‘O compadre de Ogum’ e um volume ampliado de ‘Navegação de cabotagem’, e a publicação de ‘Jorge & Zélia – Correspondência’, os três pela editora “Companhia das Letras”. Vale lembrar também que ‘Capitães da areia’ é um dos 13 livros exigidos para o vestibulares da Unicamp e Fuvest.

*Saulo Lance é colaborador do blog Livros & Ideias e estudante de filosofia na FFLCH-USP.

Foto: Divulgação

Cangaceiros em defesa de sua missão ética

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Lampião (à esq.) e Esperança são fotografados com indumentária e mosquetões em Juazeiro

Na época do cangaço no Nordeste, no começo do século passado, roubar gado era crime mais grave do que matar uma pessoa. Por volta dos anos 20, esse era um valor vigente no sertão porque a pecuária era a única riqueza naquelas terras, marcadas pela seca e pelo isolamento econômico e cultural.

Assim como os valores, outros traços e características se encontraram no homem do sertão a ponto de ser difícil afirmar que o cangaceiro se define exclusivamente por um fator, entre o desejo de vingança, a vocação para a “profissão”, ou a possibilidade de fugir ou se proteger da Justiça ante um crime praticado.

A investigação do universo do cangaceiro, em profundidade histórica, social, econômica e cultural, está nas páginas de ‘Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil’, do historiador Frederico Pernambucano de Mello, que conta com nova reedição. A obra original é de 1984 e o prefácio à primeira edição é assinado por Gilberto Freyre (1900-1987), com quem Mello trabalhou.

Com pesquisa de caráter multidisciplinar, Mello vai além de teses ortodoxas ou ideológicas sobre o tema, como a definição de que o cangaceiro era resposta à exploração dos trabalhadores pelos latifundiários. Não só há outras realidades que se mostram, como existe uma dinâmica na linguagem que o cangaceiro usa para justificar seus atos e se inscrever no universo social do sertão com uma imagem lendária e sedutora.

O historiador chama essa forma de representar do cangaceiro de “escudo ético”, uma espécie de moral da vingança para restabelecer a honra: “A necessidade de justificar-se aos próprios olhos e aos de terceiros levava o cangaceiro a assoalhar seu desejo de vingança, a sua missão pretensamente ética, a verdadeira obrigação de fazer correr o sangue dos seus ofensores”, afirma.

Essa fala comum, no entanto, muitas vezes não se traduz em violência, como conta o historiador sobre Lampião, que não só não vingou a morte do pai e questões sobre gado, como propôs um acordo de paz com um de seus desafetos. Mello esmiúça assim as contradições do cangaço: o que está em jogo nessa linguagem é a vaidade do cangaceiro, alguém que Mello compreende como “individualista, sobranceiro, autônomo, desacostumado a prestar contas de seus atos, influenciado pelos exemplos de bravura dos cavaleiros medievais”.

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Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil,

Frederico Pernambucano de Mello, editora A Girafa, SP, 2011, SP, 519 págs.

Foto: Lauro Cabral de Oliveira

Romance proletário com origem no sertanejo

Amando Fontes nasceu em Santos (SP), mas era de família sergipanaSe a literatura brasileira tivesse uma galeria de bons escritores que caíram no esquecimento, Amando Fontes (1899-1967) certamente seria destaque entre eles. Referência para a história da literatura durante o modernismo, Fontes teve sua estreia com o romance ‘Os Corumbas’, de 1933, uma obra que aponta a produção nordestina para horizontes diferentes da narrativa que predominava naquele período, marcada pelo regionalismo focado no homem e nos cenários do sertão.

‘Os Corumbas’ trouxe ao público as agruras de uma família, também sertaneja, que se transfere para Aracaju, capital de Sergipe, com a esperança de uma vida longe da miséria da seca. O casal Geraldo Corumba e Josefa, mais cinco filhos, dos quais quatro são mulheres, o que na época era visto como uma “desgraça”, passam a sobreviver com apoio do trabalho árduo dos filhos como operários de uma tecelagem. Naquele tempo ainda não existiam os direitos trabalhistas.

A economia da cidade era impulsionada por duas empresas têxteis, em torno das quais Fontes constrói o universo dos personagens. Mas as tecelagens são apenas o gancho para o escritor ter o contexto dos trabalhadores de Aracaju. A narrativa em terceira pessoa e de linguagem realista persegue os dramas que cada Corumba enfrenta.

Fontes compõe, assim, um romance proletário que explora a desagregação da família no processo de mudança do campo para a cidade. O conflito entre os valores tradicionais e os que emergem no meio urbano marca a relação entre pais e filhos e acaba por decretar a morte ou a separação.

Geraldo e Josefa seguem seu destino perdendo um filho a cada vez. É um romance triste, sem ironia, que não se distancia da vontade de mostrar um retrato da miséria entre os trabalhadores. Talvez por isso o escritor tenha sido esquecido, já que seu discurso coloca o leitor diante da realidade do histórico processo de exclusão no País.

Nem mesmo os trabalhadores gostariam de se verem retratados como nas páginas de Fontes. A história de Pedro, o filho do casal, é traçada por sua atuação como líder em uma greve da categoria, demandando pagamento de horas-extras por períodos noturnos. Como a resposta dos patrões fosse negativa, o comando de greve partiu para a violência contra os fura-greves, pegando-os em emboscadas pelas ruas.

A narrativa não tem sinais de desgaste no tempo, ela é atual e envolvente. Apesar de pouco lido, Fontes permanece um escritor imortal, que encontrou em ‘Os Corumbas’ uma resposta para o que poderia ser uma grande tragédia com expressão literária. Sua contribuição fundamental é para o desenvolvimento da literatura urbana no País, que por essa época tinha poucos representantes.

 

Os Corumbas,

Amando Fontes, editora José Olympio, 13ª edição, RJ, 1979, 172 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

Ilustração: bico-de-pena de Luís Jardim

Plínio Marcos narra a miséria do cotidiano

Plínio Marcos expressou na literatura e no teatro a voz dos oprimidos

O dramaturgo e escritor Plínio Marcos (1935-1999) tem uma marca registrada, que é contar histórias de gente simples e sofrida, que sempre carece de alguma coisa fundamental na vida, seja um lar, uma família, um amor ou a própria consciência que permita andar na linha, respeitar o outro e conviver em sociedade.

No livro ‘Histórias das Quebradas do Mundaréu’, lançado em 1973 e relançado em 2003, o escritor apresenta 43 contos, organizados segundo os temas ‘bandidagem, futebol, samba, macumba, cadeia, amor e diversos’. Essas histórias na verdade foram originalmente publicadas no jornal ‘Última Hora’, de São Paulo, dirigido pelo jornalista Samuel Wainer (1910-1980).

Segundo o escritor Pedro Bandeira, que assina no epílogo do livro uma carta a Plínio Marcos “no céu”, quando o escritor chegava na redação com os originais manuscritos a lápis havia certo alvoroço dos jornalistas em torno dele para ler as histórias em primeira mão.

É claro que são todas histórias de loucura, nas quais os personagens se projetam por meio de seus desejos mais perversos e proibidos. Mas em sua carta Bandeira adverte que Plínio não fala “contra as coisas”, como muitas vezes foi taxado: “Todos os teus personagens são vítimas do absurdo sistema de exclusão da nossa sociedade, e é a favor deles que tu fala”.

Nos contos, Plínio Marcos observa e escuta histórias, como que flanando no mundo das favelas e do porto de Santos, sua cidade natal. “Eu sou um repórter de gente simples. Conto seus amores, suas desilusões, suas pequenas glórias e suas lutas cruentas para escapar da miséria”, afirma na apresentação.

Ele escreve por meio de frases feitas, lugares-comuns e gírias, como é a fala no cotidiano, e consegue com isso usar a força da linguagem para provocar no leitor imagens de realismo e de uma crueldade aparente, que se dissipa sob a compaixão pelo outro, que está nas entrelinhas de sua prosa.

Há momentos em que Plínio apela ao recurso da literalidade das situações para impactar o universo do leitor. Isso é o que ele faz, por exemplo, no conto ‘Se não tem tu, vai tu mesmo’, em que narra a tragédia de um ‘ladrão de galinhas’, expressão que estamos acostumados a usar apenas metaforicamente para designar quem vive do pequeno crime. Nesse processo criativo, fica claro que não há fronteira entre arte e loucura, pois a literalidade das situações é também uma manifestação da psicose.

Outro conto que me chamou a atenção foi ‘Uma história do Exu Gaiato’ sobre a desventura de Dona Isaldina, que o narrador descreve como uma “coroa” e “um bagulhão velho e piranhudo”, da favela da Barra do Catimbó, que recorre a uma mãe-de-santo para ver uma macumba que lhe traga um homem para aliviar a solidão. A tal da Babá Zenaide de Angola vai, então, em busca de um serviço da pesada, dispensa os orixás e convoca “a esquerda em peso”, uma legião de exus. Mas todos recusam o desafio, restando apelar a Exu Gaiato, a quem ela promete uma farta oferenda com cigarros, pipoca, cachaça “e muitos outros badulaques”. O exu surge na história como um personagem real, expressando a força da espiritualidade na sabedoria popular.

Histórias das Quebradas do Mundaréu,

Plínio Marcos, Mirian Paglia Editora de Cultura, SP, 2003, 180 págs.

Foto: Marcos Muzi

Reflexões no seio do movimento modernista

Mário de Andrade liderou a Semana de Arte Moderna

Por conta dos 90 anos da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, resgatei da estante o livro ‘A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade’, uma compilação da correspondência redigida entre 1924 e 1945, até dois dias antes da morte de Mário, que foi o principal articulador da histórica semana que mudou a maneira como as artes eram produzidas no País.

A literatura registrada em cartas é conhecida como gênero ‘epistolar’ e a obra de um escritor nesse formato é chamada ‘epistolografia’. No caso de Mário de Andrade, esse gênero é fundamental para a compreensão de suas ideias, afinal, foram publicados nove volumes reunindo esses textos, que ele redigia com afinco e desprendimento.

O livro é importante também porque foi com Drummond que o escritor paulistano teve sua mais intensa troca. Na apresentação, Drummond afirma que a produção epistolar começou tão logo a dupla travou amizade: “Estabeleceu-se imediatamente um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária por mim recebido em toda existência”.

Quando a correspondência começou Drummond contava 22 anos, era um escritor iniciante e Mário, do alto de seus 31 anos, com a bagagem da Semana de 22 e a publicação de ‘Há uma gota de sangue em cada poema’ (1917) e ‘Pauliceia desvairada’ (1922), dava conselhos ao amigo que na época morava em Belo Horizonte.

Assim, logo nas primeiras cartas, Mário analisa algumas poesias enviadas por Drummond, dando sugestões para aprimorar os textos. Esses conselhos representam um achado, porque são raros os momentos em que os escritores abrem seus segredos de composição, como, por exemplo, quando Mário sugere eliminar artigos de algumas frases para reforçar a presença do substantivo.

O livro mostra um Mário de Andrade espontâneo, de linguagem fácil, sem pretensões em seu texto, afinal, ele não tinha ambição de ver suas cartas publicadas ou, às vezes, contraditoriamente, deixava esse desejo se manifestar. Mas a decisão de publicá-las ocorreu por seu valor para o pensamento literário no País. Há muitos momentos de reflexão, e o leitor poderá entender as motivações do modernismo: “O que nós todos queremos (o que pelo menos imagino que todos queiram) é obrigar este velho e imoralíssimo Brasil de nossos dias a incorporar-se ao movimento universal das ideias”, afirma, referindo-se ao modernismo entre os artistas europeus. Mas para isso era preciso ser nacionalista, ou criar identidade com a cultura do brasileiro: “Nacionalismo quer simplesmente dizer: ser nacional. O que mais simplesmente ainda significa: Ser.”

 

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade,

Mário de Andrade, editora Record, RJ, 1988, 272 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

Fonseca inverte os dados do romance policial

Fonseca influencia as novas gerações de escritores

Com a proliferação dos festivais literários, a imagem do escritor se tornou tão importante quanto sua obra. A profissão passou a seguir o receituário de marketing das editoras, em que a imagem é condição para o sucesso da produção do autor.

Mas é óbvio que para o escritor a relação entre obra e imagem não é algo fácil, ou resolvido. Muito menos para Rubem Fonseca, que com ironia e genialidade aborda essa questão no conto ‘Romance negro’. Segundo Karl Erik Schollhammer, professor de literatura na PUC Rio e autor do livro ‘Ficção brasileira contemporânea’ (editora Civilização Brasileira), ‘Romance negro’ é um texto chave para conhecer o escritor.

Fonseca renovou o cenário literário brasileiro nos anos 60, quando publicou seu primeiro trabalho, a antologia de contos ‘Os prisioneiros’. Com um estilo realista e inspirado no submundo do crime e da violência, trazendo ao público o ponto de vista de prostitutas, bandidos e outros segmentos excluídos da sociedade, a obra de Fonseca foi batizada de ‘brutalismo’. Desde então, ele é um dos escritores que mais influencia as novas gerações.

Em ‘Romance negro’, Fonseca revisita o conto ‘Assassinatos na rua Morgue’, do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), que com esse texto fundou o gênero do romance policial moderno, que desenvolve a narrativa com base na investigação de vestígios do crime para descobrir o assassino. Esse método reforça a ideia de que não existe crime perfeito, já que é impossível apagar todos os rastros.

O protagonista de Fonseca é um escritor norte-americano, chamado Peter Winner, que participa de um festival literário internacional na França, dedicado ao romance e ao filme policial. Ao falar ao público, Winner realiza uma inversão da estrutura do gênero, desafiando o ouvinte: “Neste crime perfeito, todos saberão logo quem é o criminoso e terão de descobrir qual é o crime e quem é a vítima”, afirma, apresentado-se em seguida como autor do tal crime.

Esse jogo dentro da estrutura do romance policial permite que Fonseca coloque em questão o conflito entre a imagem do escritor e a obra, o que acontece também sob influência do leitor, que no conto toma o lugar do escritor para dar continuidade à sua produção. Mas isso não é tudo. O texto de Fonseca é híbrido entre prosa e ficção, sendo, além de uma história policial, uma reflexão sobre o gênero que está no centro da narrativa, trazendo referências literárias e filosóficas, o que o torna ainda mais interessante.

 

Romance negro e outras histórias,

Rubem Fonseca, Companhia das Letras, SP, 1992, 188 págs.

Foto: Zeca Fonseca/Divulgação

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