Crime e poder na visão de Lucrécia Bórgia

M. G. Scarsbrook é escritor, historiador e roteirista

Sou pouco afeito a romances históricos, por achar que esses textos nem sempre são ricos de significados. Mas na semana passada me rendi a um deles depois que comecei a ler as primeiras páginas por curiosidade e quando dei conta percebi que a leitura avançava com fôlego incomum, movida pelo texto coloquial e por um clima misterioso em torno de crimes, o que me remetia aos filmes de suspense.

‘Veneno nas veias’ é um livro de autoria de M. G. Scarsbrook, pseudônimo de Mathew Graham  Scarsbrook, escritor e roteirista canadense que atualmente vive na Inglaterra e que fez sucesso com o thriller histórico ‘A conspiração Marlowe’, que virou best-seller quando foi publicado no exterior.

O romance traz a história de Lucrécia Bórgia, filha do papa Alexandre VI, que viveu entre os séculos 15 e 16, e virou lenda na cultura ocidental por ter protagonizado histórias de lascívia e assassinatos, em meio a uma família movida por ambição e poder.

De origem espanhola, o papa exercia influência sobre os reinos da Europa, corrompendo príncipes, políticos, cardeais e bispos. Lucrécia, dona de beleza incomum, teria vivido relações incestuosas com o irmão César, que se torna um déspota ambicioso, fonte de inspiração para o embaixador Nicolau Maquiavel, também personagem do romance, que naquele momento escrevia sua obra capital, ‘O Príncipe’, referência em filosofia política.

Scarsbrook adota o ponto de vista de Lucrécia, colocando-a como narradora em primeira pessoa. É uma forma de humanizar essa personagem que ficou conhecida como uma das mulheres mais cruéis da história, sem haver, no entanto, provas cabais de seus crimes. Diz a lenda que Lucrécia guardava veneno em um anel para usá-lo contra seus inimigos.

Lucrécia já foi contada várias vezes no teatro, cinema e literatura. ‘Lucrécia Bórgia’ foi, por exemplo, título de uma peça do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), em que ele destaca as orgias de que participavam todos os membros da família. O papa, aliás, vivia cercado de cortesãs.

O americano Mario Puzo (1920-1999) também escreveu ‘Os Bórgias’, sobre a família que envenenava pessoas sem escrúpulos, apoderando-se de seus bens, e acumulando fortunas nos cofres papais, impondo um poder que governou Roma por anos. A trajetória da família ambiciosa e corrupta também virou história em quadrinhos e se tornou série de TV. Lucrécia Bórgia é um personagem do imaginário popular.

 

Veneno nas veias: memórias de Lucrécia Bórgia,

M. G. Scarsbrook, Geração Editorial, 2010, SP, 335 págs.

 

Foto: Divulgação

O retorno do filho rejeitado pelo ditador

Luíz Horácio explora a linguagem do pampa (foto: Divulgação)

A Comissão da Verdade instalada na semana passada pela presidente Dilma terá a missão de reescrever a história do País no período de 1946 a 1988, tirando a limpo fatos e personagens envolvidos. É uma iniciativa sujeita a polêmicas e pressões, mas que resgata o direito do cidadão ter acesso a informações para formar livremente sua opinião.

Na literatura, o tema da ditadura militar, de 1964 a 1985, é fecundo. Os traumas, violações dos Direitos Humanos, as confabulações e atos de tortura formam o retrato de um Brasil que a cultura de massa ignorou e esqueceu, com exceção da literatura e do cinema.

Ainda hoje a produção literária repercute as angústias e enigmas desse período, como é o caso do romance ‘Pássaros Grandes Não Cantam’ (2010), do escritor Luíz Horácio Pinto Rodrigues, gaúcho de Quaraí, município da fronteira com o Uruguai. O livro completa uma trilogia com ‘Perciliana e o pássaro com alma de cão’ (2005) e ‘Nenhum pássaro no céu’ (2008).

A história se desenvolve em torno de Horácio, um estancieiro da região de Rosário e Livramento, no pampa gaúcho, que foi colaborador da ditadura militar. O livro desperta a curiosidade do leitor pelo fato de mostrar como pensa um ser que se constitui entre preconceitos, possessões, ódios e arrogâncias.

O romance também desnuda o preconceito contra os negros, que ainda hoje persiste na cultura, como herança arcaica dos tempos da escravidão, mas faz isso não sem explorar a relação ambígua que se coloca no confronto de raças no País. “Me parece que usted gosta deles, mas acha que não deve gostar?”, indaga o vaqueiro Amâncio a Horácio, referindo-se aos negros.

Essa relação ambígua permeia o romance, que se desdobra a partir de um caso de amor entre Horácio e Ana Maria, uma negra da estância vizinha, que engravida e por isso é expulsa da região, tendo de reconstruir a vida no Rio de Janeiro.

O retorno do filho que resultou da união pretensamente indesejada marca o tempo presente do romance, é quando Horácio começa a se defrontar com a verdade de sua existência. Armando, o filho rejeitado, surge na história como que para protestar contra a ausência de pai, uma carência que é um verdadeiro sintoma da cultura hoje.

O romance também tem um caráter regional, e por isso é construído em ‘gauchês’, com as expressões comuns do homem do pampa. Esse aspecto enriquece o livro com ironia, é uma contribuição para ilustrar o conhecimento de quem está cansado de linguagem globalizada que sufoca a subjetividade nos dias de hoje.

Pássaros Grandes Não Cantam,

Luíz Horácio, Global Editora, São Paulo, 2010, 220 págs.

A loucura e poesia da infância na velhice

Karla foi voluntária em abrigo por dois meses (Foto: Divulgação)

O mundo é dominado pelos jovens e adultos. As crianças e os idosos são atores coadjuvantes e isso indica que os valores dominantes são os da faixa dos concidadãos que produzem, estudam, ganham dinheiro e dizem o que é certo ou errado.

Mas essa lógica não funciona em ‘Minha vida de brinquedo’, romance de estreia da escritora independente Karla Lima, que coloca em cena os dramas e histórias dos moradores de um abrigo para idosos, narrados por uma menina, filha da nova diretora que assume depois de a instituição ter sido vítima de um administrador insensível.

A história começa com a morte de Ethel Shimmer em 1966, atropelada ao sair do cartório após lavrar seu testamento. Este determinava que a fortuna deixada pela viúva sem filhos fosse empregada na construção de um lar para idosos que tivesse por princípio tratar todos com respeito e dignidade.

Com sensibilidade poética e conhecimento das paixões humanas, Karla coloca o leitor frente a frente com a velhice, tema tantas vezes esquecido, ou abertamente rejeitado, já que há muitos idosos em situação de abandono por seus familiares. Amarrando a história com a perspectiva da menina, Karla revela retratos sobre a busca de nossos desejos de infância até a morte.

“Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária”, afirma a escritora, que vive em São Paulo com a parceira e esposa Pya Lima, responsável pelo título, capa, projeto gráfico e argumento (criança que mora em asilo).

No abrigo, cada personagem vive sua própria loucura, como a ex-vedete que troca de peruca várias vezes ao dia, ao sabor de seu estado de espírito, ou o botânico que conversa com as plantas em uma língua que inventou. “Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor seria evitada”, afirma a escritora.

Para elaborar a obra, Karla viveu dois meses como voluntária em um asilo. “Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes e outros detalhes”. Karla também conta que escreveu o romance em seis meses, trabalhando cinco dias por semana, ao ritmo de quatro páginas por dia, permeadas por algumas angústias características do processo criativo.

A capa do livro, simulando um caderno antigo, faz referência ao ‘caderno de teorias’ da menina, que diariamente apresentava à mãe um texto sobre os acontecimentos do dia no abrigo. A obra pode ser comprada pela internet, ou nas livrarias Cultura e da Vila.

Leia a íntegra da entrevista por e-mail com a escritora Karla Lima

No livro, você coloca em evidência o mundo dos idosos, que representam um estrato social esquecido, afastado, rejeitado ou invisível da sociedade. Você diria que trazer à tona os personagens e as questões esquecidas é o próprio papel do escritor?

Sim, sem dúvida esse é um dos papéis dos escritores, mas não só nosso. Toda forma de arte é um colírio comportamental, porque tudo que faz pensar ajuda a enxergar melhor e enxergar, acho eu, é o primeiro passo para agir. Também acredito que o escritor tenha outros papéis, como despertar a curiosidade, alimentar a fantasia, promover o hábito da boa leitura, educar para outras realidades, validar certos anseios, respaldar crenças e atitudes minoritárias ou incompreendidas…

Fale um pouco da história do livro, do ponto de vista de sua inspiração e transpiração… Quanto tempo você levou para escrevê-lo, como sua rotina teve de se transformar? Como surgiu a ideia?

O argumento inicial (criança que mora em asilo) foi sugerido pela minha mulher, Pya Lima, que é responsável também pelo título e pelo projeto gráfico, incluindo a capa.

Para me preparar, fui voluntária em um asilo por dois ou três meses. Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes etc.

Como sou autônoma, tenho bastante controle sobre minha rotina. Levei seis meses para escrever o MVB e nesse período me dediquei exclusivamente a ele cinco vezes por semana (às quintas-feiras em geral não trabalho, só leio o dia inteiro; aos domingos, descanso). Em um dia produtivo, conseguia redigir até quatro páginas (ô, momento sublime!) – mas também houve muitas ocasiões em que nenhuma linha decente saiu (ô, angústia!). Releio e reescrevo cada frase vezes sem conta, chego mesmo a encenar, sozinha, algumas situações; porém, uma vez encontrada a forma que julgo ideal, não torno a mexer. Se acredito no que produzi, e só avanço quando acredito, sou bem pouco aberta a sugestões e pitacos: defendo meu texto com uma ferocidade animal! Mas, dizia eu, a descoberta da expressão adequada é o momento de glória, a busca infrutífera é desesperadora (posso gastar um dia inteiro procurando determinada palavra) e a alternância entre esses dois estados é muito, muito cansativa. Quando o arquivo finalmente seguiu para a gráfica, eu estava emocionalmente exausta. E também triste pela separação: durante semanas, senti saudade dos personagens; ontem, numa livraria, vi um senhor que é a cara do Antero. Às vezes, sonho com a Bárbara.

E a opção de criar uma edição de autor? Você procurou as editoras e o que aconteceu? O livro pode ser comprado só nas livrarias da Vila e Cultura?

Este é meu terceiro livro e todos foram publicados como edição de autor. Apenas no primeiro eu procurei uma editora. Não gostei do modelo, lancei como independente, funcionou tão bem que dois anos depois fiz uma nova tiragem, funcionou de novo e repeti com o segundo livro… Não havia razão para, no terceiro trabalho, me submeter a um contrato. Gosto de ter controle sobre a produção, a distribuição e a divulgação. Na eventualidade de alguém ter interesse em adaptar para outra mídia (cinema, teatro ou outro), prefiro ter a palavra final.

Ser independente me dá liberdade total quanto a forma, conteúdo, preço e comercialização, e com isso respondo a outra pergunta. No site ‘litros de letras [veja endereço abaixo], ofereço para download gratuito o Armário sem Portas e o Ziguezagueando pelo Islã; ora, se eu estivesse amarrada a uma editora, poderia fazer isso? Nesse mesmo site também é possível comprar o ‘Minha Vida de Brinquedo’ via Pagamento Digital (boleto, cartão de crédito, transferência online).

Quanto aos pontos de venda: sim, por enquanto apenas na Vila e na Cultura, o que é pouco, mas não me preocupa: desde 2006, nossas vendas pessoais superam a venda em livrarias.

Hoje, o senso comum é um tanto opressor, visto que a mídia tenta impor visões de mundo para o sujeito. Nesse sentido, escrever seria o mesmo que navegar contra essa corrente e abrir ao leitor a oportunidade de construir outro senso?

Às vezes, porque alguns livros só fazem reforçar a obediência ao senso comum, só agravam a sujeição do leitor a um padrão medíocre de vida e a um horizonte pobre de sonhos. Outros livros, entre os quais tenho a esperança de poder incluir o meu, fazem o oposto: relembram, instigam, jogam luz sobre cantos em geral pouco iluminados do ser. Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor não se evitaria! E se os adultos cuidassem das crianças como um dia desejaram ser cuidados, que novos adultos estaríamos preparando! Equilibrados, saudáveis, amorosos, confiantes… O senso comum é instaurado pelos adultos. Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária.

Acredito no poder da literatura, sei por experiência pessoal como uma obra pode mudar uma percepção, transformar insegurança em esperança, rejeição em pertença, dúvida em descoberta… E muito mais.

Minha vida de brinquedo,

Karla Lima, edição da autora, SP, 2011, 236 págs.

Onde encontrar – www.litrosdeletras.com.br.

Jung para desvendar a simbologia dos sonhos

Jung concluiu ‘O Homem e seus Símbolos’ dez dias antes de morrer (Foto: Divulgação)

Os sonhos são fontes de enigmas e mistérios. Temos uma tendência a acreditar que eles podem antecipar acontecimentos, mas sobre isso há controvérsias. O fato é que os sonhos são como uma tela que projeta imagens relacionadas aos desejos e medos ocultos, guardados no lado inconsciente da mente humana.

Esse interesse pelo tema surgiu quando assisti ao filme ‘Um método perigoso’, de David Cronenberg, que traz a história do relacionamento e ruptura entre Sigmund Freud e o suíço Carl Gustav Jung, no começo do século 20, quando Freud criava a psicanálise. A relação é entremeada pela estudante russa Sabina Spielrein, que de amante e paciente de Jung se torna brilhante discípula de Freud. Há um momento no filme, quando Freud e Jung estão viajando para os Estados Unidos, em que eles interpretam um sonho de Freud, revelando seu caráter simbólico.

Depois do cinema encontrei em um sebo, com preço acessível, um livro que, digamos, dá asas ao universo dos sonhos. ‘O Homem e Seus Símbolos’, de Jung, é uma obra que procura desvendar a importância dos símbolos e para isso busca sua conexão com os sonhos, mostrando como as imagens e impressões noturnas estão ligadas ao inconsciente, marcado pelos símbolos da cultura, como os ícones da religião e as próprias palavras.

O livro não é um relato técnico de psicologia, mas uma composição em que Jung quis aproximar esse conhecimento do leitor leigo. A edição, com mais de 500 ilustrações, surgiu depois de uma entrevista de Jung para a emissora britânica BBC, em 1959, que obteve considerável sucesso. Além de Jung, o livro traz textos de seus discípulos, procurando analisar também a repercussão dos símbolos nos mitos e na vida moderna, nas artes, no indivíduo e no tratamento psicoterápico.

O livro é também uma oportunidade para conhecer os princípios da abordagem de Jung, que tem, por exemplo, os conceitos de inconsciente coletivo e de arquétipos, ou seja, os modelos universais que residem na imaginação, como na atividade dos sonhos, que cria situações e personagens inusitados.

Jung terminou o livro dez dias antes de sua morte, em junho de 1961. A publicação original é de 1964. Inicialmente, o autor recusava a proposta do jornalista John Freeman para a obra, mas aceitou o convite depois que teve um sonho em que se viu explicando sua ciência para uma multidão de leigos.

Um dos pontos fundamentais do livro é o entendimento de que o símbolo se define por ter algo de inconsciente em seus significados. Na religião, por exemplo, há muitas referências às paixões “demoníacas” ocultas no ser humano, o que é uma forma simbólica de se referir ao inconsciente humano.

O Homem e seus Símbolos,

Carl Gustav Jung, tradução de Maria Lúcia Pinho, editora Nova Fronteira, RJ, 2005, 320 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.

Battisti conta os dias na carceragem da PF

Battisti no lançamento de ‘Ao pé do muro’, na USP: vítima da literatura

O que era para ser o lançamento de um livro virou um ato em defesa da inocência do ex-ativista italiano Cesare Battisti, que na quinta-feira apresentou aos estudantes da USP seu novo romance ‘Ao pé do muro’, obra que completa a trilogia em torno de sua biografia desde os anos 70, quando participava do grupo de esquerda Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Os outros títulos são ‘Minha fuga sem fim’ (2007) e ‘Ser bambu’ (2010).

“Sou vítima da caneta; se eu não escrevesse não teria passado por isso e como tantos outros refugiados italianos espalhados pelo mundo estaria levando uma vida tranquila”, afirmou Battisti, referindo-se à acusação de quatro assassinatos durante os anos 70, época em que as forças repressivas atuavam sob a máscara da democracia na Itália. No Brasil, o escritor ficou preso por quase cinco anos sob acusação de uso de documento falso.

Em liberdade desde junho do ano passado, cinco meses depois que o presidente Lula rejeitou o pedido de extradição pela Itália, Battisti espera agora exercer apenas a imagem de escritor perante a opinião pública, mostrando que não é o ex-terrorista monstruoso reclamado por aqueles que defendem sua extradição. “A Constituição do País diz que a extradição não pode se dar por motivos políticos e poucos casos são tão políticos quanto o de Battisti”, afirmou o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que defendeu o italiano.

O professor da Unicamp e membro da Anistia Internacional Carlos Alberto Lungarzo mantém um site na internet (http://sites.google.com/site/lungarbattisti/) em que publica as provas periciais de que Battisti foi julgado na Itália, em 1982 e em 1990, com procurações falsificadas pelas autoridades. “Cesare foi perseguido porque falou a verdade sobre tabus como a máfia”, afirmou.

O livro de Battisti, que primeiro foi lançado em março em Paris, foi escrito na carceragem da Polícia Federal em Brasília, onde o escritor ficou antes de ser levado para o presídio da Papuda. ‘Ao pé do muro’ é sua décima oitava obra. A história narra a trajetória de Augusto, um foragido internacional que vem ao País em busca de proteção.

“Augusto é uma projeção”, afirma Battisti, que fez um romance de caráter prisional. “Quando acabei de escrever esse livro, tomei consciência de um pensamento de Nelson Mandela, de que ninguém de fato conhece uma nação até que se veja em uma prisão. Eu conheci o Brasil por meio da palavra de seus presos”.

Ao pé do muro,
Cesare Battisti, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Martins Fontes, SP, 2012, 304 págs.

 

Foto: Divulgação

A tatuagem no Rio de João

Em ‘A alma encantadora das ruas’, João do Rio vê os meninos que fazem tatuagem nas ruas:

“— Quer marcar?

Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus, as mãos pouco limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor, um rapazola louro, com uma dourada carne de adolescente, sentado a uma porta, indagou:

— Por quanto?

— É conforme, continuou o petiz. É inicial ou coroa?

— É um coração!

— Com nome dentro?

O rapaz hesitou. Depois:

— Sim, com nome: Maria Josefina.

— Fica tudo por uns seis mil réis.”

Um pouco mais adiante…

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou to tahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha da pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.

Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além dos golpes sarados com o pó preservativo do mau olhado, usam figuras complicadas. Alguns, como o Romão da Rua do Hospício, têm tatuagens feitas há cerca de vinte anos, que se conservam nítidas, apesar da sua cor — com que se confunde a tinta empregada.”

Resumo da obra:

http://livroseideias.wordpress.com/2011/10/24/espaco-vivo-onde-a-linguagem-se-transforma/

Download da obra:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action&co_obra=2051

Na irracionalidade da talentosa Highsmith

Joan Schenkar trabalhou 8 anos para escrever a biografia de Patricia Highsmith

A escritora americana de romances policiais Patricia Highsmith (1921-1995), criadora do personagem Tom Ripley, está de volta à livraria, não como autora, mas como personagem, na portentosa biografia ‘A talentosa Highsmith’, de 816 páginas, lançada pela editora Globo, de autoria da dramaturga americana Joan Schenkar, que trabalhou oito anos na pesquisa do livro para conferir à escritora o lugar que merece na história da literatura.

Em um artigo publicado no site ‘The Paris Review’, Joan destaca a expatriação da escritora, que preferiu viver na Europa a partir dos anos 50, por encontrar mais aceitação para suas opiniões, críticas demais diante dos valores vigentes. Patricia, por exemplo, não gostava de família. “Entre os escritores do século 20, somente André Gide tem mais coisas danosas a dizer sobre laços de sangue, mas Patricia foi mais fundo nesse tema”, afirma Joan. Outro aspecto que a afastou da cultura americana foi o lesbianismo e sua disposição para muitos casos de amor.

Joan define a escritora como alguém ambivalente ao extremo, capaz de mudar sua posição política de comunista para fascista e depois de liberal para libertária em uma única semana. A dramaturga entrevistou cerca de 300 pessoas em seis países e teve acesso ao espólio intelectual da escritora – 38 cadernos de notas, diários e 250 manuscritos inéditos.

A obra mais famosa de Patricia Highsmith é o romance ‘O talentoso Ripley’, publicado pela Companhia de Bolso. Para quem nunca leu a escritora, essa história vale a pena. Nos sebos também é possível encontrar edições mais antigas, publicadas com o título ‘O Sol por Testemunha’.

Tom Ripley é um personagem que seduziu o cinema por pelo menos quatros vezes com ‘O Sol por Testemunha’ (René Clement, 1960), ‘O Amigo Americano’ (Wim Wenders, 1977), ‘O Talentoso Ripley’ (Antony Minguella, 1999) e ‘O Retorno do Talentoso Ripley’ (Liliana Cavani, 2002). Esses filmes trazem como Ripley, respectivamente, Alain Delon, Dennis Hopper, Matt Damon e John Malkovich.

No romance, Ripley é alguém que não distingue bem a ficção da realidade, sofre de mania de perseguição, não se define sexualmente e sucumbe diante do desejo de matar. A atmosfera do livro é claustrofóbica e angustiante, e nela desponta a extrema sensibilidade da escritora para criar personagens de psiquismo doentio e oscilante.

A pedido de um empresário americano, Ripley vai para Mongibello, uma cidade no sul da Itália, em busca do filho desse homem, que deixou os Estados Unidos para viver à beira-mar, em uma vida de prazeres. Ripley então entra gradativamente em conflito com o rapaz, de quem acaba tomando o lugar. Não há julgamento moral na obra de Patricia e o crime é banal, dando um choque de realidade, ou de irracionalidade, no leitor. A biografia e a obra de Patricia Highsmith são fatalmente contaminadas uma pela outra.

(Foto: Laurence Parade/Divulgação)

Testamento literário com pensamentos ácidos

Bukowski, que apreciava o álcool, teve uma farta produção de romances, contos e poesias

A morte é um tema permanente dos escritores. Seu fascínio está não apenas no que possui de desconhecido e enigmático, mas também nas incômodas realidades, ou angústias, que ela pode revelar. A morte representa um tabu nos dias atuais.

Simbolicamente, escrever e morrer são atos próximos. “Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate”, afirma o poeta e escritor Charles Bukowski (1920-1994) no pequeno diário ‘O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio’, publicado quatro anos depois de sua morte e que traz suas reflexões a partir dos 71 anos.

Nesse livro escrito até poucos dias antes de morrer, Bukowski, que nasceu na Alemanha e se radicou nos Estados Unidos, cumpre com o estilo ácido de sempre o destino de todo humano ao envelhecer: contar sua própria história e fazer um inventário de ideias.

Essa necessidade de deixar um testamento literário é algo que não é diferente do desejo que todas as pessoas têm ao envelhecer, que é relembrar sua trajetória e deixar para o outro um legado oral.

A morte é assim um tema que permeia o livro: “Estar perto da morte é energizante. Tenho todas as vantagens. Posso ver e sentir coisas que são escondidas dos jovens. Passei do poder da juventude para o poder da idade”.

Bukowski é o poeta dos ‘anjos caídos’ da América, um escritor que povoa suas histórias com marginais, prostitutas e outros personagens que a cultura do sonho americano tenta encobrir.

Nesse diário, ele atravessa sua rotina entre um hipódromo e as noites no computador escrevendo. As apostas nos cavalos servem como combustível para potencializar a arte da escrita. De vez em quando, algum falso jornalista bate à sua casa, e ele concede longas entrevistas regadas a vinho. Na verdade, são leitores que querem se aproximar do mito da literatura, que prefere viver isolado.

Para Bukowski, essa é uma fase de amadurecimento, que se reflete em sua produção. “Provavelmente, escrevi mais e melhor nos últimos dois anos do que em qualquer época da minha vida”. Ao mesmo tempo, sua saúde dá sinais de esgotamento. No livro, ele chega a fazer um inventário de suas doenças, como problema de visão, câncer de pele, dores nas pernas, enfim, limitações que mostram que o desejo de escrever desafia a morte.

O livro tem ilustrações do artista gráfico e quadrinista Robert Crumb, que é um mito da época da contracultura, sendo considerado um dos mentores dos quadrinhos ‘underground’.

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio,

Charles Bukowski, tradução de Betina Gertum Becker, com ilustrações de Robert Crumb, editora L&PM Pocket, Porto Alegre, 2010, 150 págs.

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Estranhos valores na obra clássica de Camus

Albert Camus escreveu trilogia sobre o ‘absurdo’

Confesso que ainda não havia lido ‘O Estrangeiro’, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). O ‘confesso’ nesse caso surge porque se trata de um romance clássico, e os leitores que apreciam literatura têm certa resistência em dizer “estou lendo Camus”, preferindo “estou relendo Camus”.

Mas é confortante saber que não estou sozinho na minha ignorância. “… por maiores que possam ser as leituras de formação de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu”, afirma o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) em um livro chamado ‘Por que ler os clássicos’, da Companhia das Letras.

Mas a vergonha de dizer que ainda não li é uma banalidade. Os clássicos são ‘clássicos’ justamente porque são obras imortais, o que quer dizer que tem sempre alguém interessado em sua leitura. “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, escreve Calvino.

Trata-se também de um livro em que cada leitura vai suscitar novas descobertas. Com ‘O Estrangeiro’ essa impressão é marcante. Não há como dar conta de toda a teia de significados pelos quais se pode enveredar, principalmente porque a experiência do leitor se relaciona com a história.

Não pude, por exemplo, evitar as lembranças do calor inebriante de uma viagem que fiz à ilha de Marajó, no Pará, quando o protagonista de Camus dispara cinco tiros em um árabe que lhe mostra uma navalha, sob o sol escaldante de uma praia em Alger, capital da Argélia: “No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me os olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou”.

O romance é a história de um sujeito chamado Meursault que é condenado à pena de morte não apenas por seu crime, mas porque se mostrou indiferente à morte de sua mãe e também porque se nega a crer em Deus, seguindo o princípio da fé cristā, formalmente imposta à sociedade colonial da Argélia, que se tornou independente da França em 1962. O livro é de 1942.

Meursault é um estrangeiro no sentido de alguém que não compartilha dos valores vigentes; ele é um estranho em seu próprio país. O julgamento cumpre assim um destino moralista. A experiência de Meursault leva o leitor a olhar a humanidade do lado de fora, por meio do estranhamento aos sentimentos e emoções que estão mais arraigados em nossa vida.

O romance é a fala de alguém que não encontra seu lugar no grupo social. Enquanto lia o livro, fiquei me perguntando o quanto a depressāo nos dias de hoje nāo é também essa perda de espaço no grupo, já que o indivíduo não se acredita capaz de dar conta das demandas que caem sobre ele.

‘O Estrangeiro’ é a obra mais famosa de Camus, e faz parte de uma trilogia que investiga o tema do absurdo. Os outros textos sāo ‘O mito de Sísifo’ e a peça de teatro ‘Calígula’. Quando foi publicado, ‘O estrangeiro’ provocou tamanho impacto entre os intelectuais, que permitiu o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre (1905-1980) quis conhecer Camus, estabelecendo uma amizade com ele ao longo de dez anos.

O Estrangeiro,

Albert Camus, tradução de Valerie Rumjanek, editora Best Bolso, 2010, SP, 112 págs.

 

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E os muros caíram com o fim da Guerra Fria

Jim Powell teve seu romance de estreia traduzido em 15 países

A ideia de que vida e política são coisas separadas é mais uma entre as tantas ilusões que se colocam no dia a dia. Na realidade, cada um é sujeito da história. É escrevendo sua própria trajetória que o indivíduo desempenha um papel no grupo e pode contribuir para transformar a sociedade. Isso é o que acontece de forma evidente quando há uma revolução. O mundo de valores estabelecidos desaba e o sujeito se coloca frente a frente com seu destino e origem.

Feliks Zhukovski é um personagem que vive esse processo de transformação da história. Esse judeu polonês que no início dos anos 90 tinha 61 anos e era radicado na França sentiu na pele o impacto da queda do muro de Berlim, que permitiu a reunificação da Alemanha graças à intensa pressão popular. Zhukovski é o suposto narrador do livro ‘Arriscar é viver’, que inaugura a carreira de romancista do historiador inglês Jim Powell, conhecido também por ter sido office-boy dos Beatles na juventude.

Durante a Guerra Fria e a existência do muro, Zhukovski ganhava a vida editando um guia turístico sobre os países do Leste Europeu. Ele pertenceu por uma fase ao Partido Comunista francês e se definia como ‘esquerdista’, tendo sido na juventude ativista sindical e redator de um jornal de esquerda. Com o fim dos conflitos entre os blocos capitalista e soviético e o acirramento do processo de globalização, Zhukovski descobre que não consegue mais fazer sozinho a atualização do guia, frente às profundas mudanças econômicas e culturais que se disseminam nos países.

O narrador é também um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, que vive sozinho, preferindo as ideias às pessoas, e com isso sufocando os fantasmas das feridas da guerra, depois de ter sido separado ainda criança da mãe e do irmão mais velho. Assim, ao se deparar com a oportunidade de vender o guia para uma editora norte-americana, Zhukovski viaja para os EUA e lá também reencontra o irmão, com quem restaura os laços do passado, começando a acreditar que as pessoas são mais importantes do que as ideias.

Powell adota uma linguagem simples e fluente, proporcionando ao leitor o prazer de ganhar as páginas com fôlego. A princípio, a narrativa parece colocar para o leitor apenas a discussão de questões políticas e históricas, mas o resgate da identidade de Zhukovski é um processo que escapa à racionalidade, como a queda de um muro. Pretenso esquerdista, ele se descobre alguém conservador, partindo então para a busca das coisas que realmente fazem sentido na vida.

 

Arriscar é viver,

Jim Powell, tradução de Samuel Dirceu, Geração Editorial, SP, 2012, 349 págs.

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