História para compreender os nossos valores
05/12/2011 2 Comentários

Ribeiro concebeu ‘O Povo Brasileiro’ nos anos 50
O jornalista Mino Carta, da revista Carta Capital, reclamou há poucos dias da qualidade do jornalismo praticado entre nós, dizendo que percebe nos profissionais de comunicação falta de conhecimento sobre história do Brasil. “Eu fico pasmo em jovens jornalistas não saberem nada sobre isso”, afirmou em um seminário sobre jornalismo online.
Mas eu desconfio que o jornalismo não está sozinho. Profissionais de medicina, engenharia, advocacia, economia, psicologia e tantas outras áreas do conhecimento parecem se ressentir de noções de história, de saber um pouco sobre raízes de identidades culturais, que podem, por exemplo, desmascarar a realidade das nossas relações.
O próprio Mino adota uma expressão para contaminar de história a noção de classe dominante, os endinheirados, que ele chama de ‘herdeiros da Casa-Grande’, em referência à divisão entre Casa-Grande e Senzala nos engenhos coloniais do passado. No Brasil, ainda se constrói apartamentos e casas com ‘quarto de empregada’, o que também não deixa de ser um resquício das relações que preferimos desconhecer.
Um livro que trata das matrizes de relações sociais no País e merece ser lido por qualquer profissional ou estudante que queira ter mais espírito crítico é ‘O Povo Brasileiro’, do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro (1922-1997). As livrarias têm duas edições, uma delas de bolso, impressas a partir da versão consolidada por Ribeiro pouco tempo antes de sua morte.
‘O Povo Brasileiro’ foi escrito e reescrito desde que seu projeto foi concebido nos anos 50. Já no início era uma obra pretensiosa. Ribeiro a buscava como “um retrato de corpo inteiro do Brasil, em sua feição rural e urbana, e nas versões arcaica e moderna, naquela instância que, a meu ver, era de vésperas de uma revolução social transformadora”, afirma no prefácio, referindo-se ao espírito de mudanças que no início dos anos 60 levou João Goulart (1919-1976) ao poder. Seu governo, no entanto, sucumbiu ao golpe militar de 1964, o que liquidou os projetos populares no País.
Assim como Ribeiro o escreveu várias vezes, o leitor também terá a necessidade de revisitar esse livro. Não se trata apenas da quantidade e importância das informações, mas o quanto elas impactam em nossa noção das coisas.
Na minha releitura, levei para o pensamento uma ideia sobre ‘antropofagia’ que Ribeiro apresenta na página 47 da edição de 1995: entre os índios do início do período colonial, seus prisioneiros de guerra eram transformados em ‘paçoca’, uma iguaria de carne e farinha de mandioca, e servidos em banquetes. Não sei por que, mas sempre achei que a nossa antropofagia fosse menos elaborada.
Darcy Ribeiro, Companhia de Bolso, SP, 2006, 440 págs., R$ 31.


Opinião do leitor