História para compreender os nossos valores

Ribeiro concebeu ‘O Povo Brasileiro’ nos anos 50

O jornalista Mino Carta, da revista Carta Capital, reclamou há poucos dias da qualidade do jornalismo praticado entre nós, dizendo que percebe nos profissionais de comunicação falta de conhecimento sobre história do Brasil. “Eu fico pasmo em jovens jornalistas não saberem nada sobre isso”, afirmou em um seminário sobre jornalismo online.

Mas eu desconfio que o jornalismo não está sozinho. Profissionais de medicina, engenharia, advocacia, economia, psicologia e tantas outras áreas do conhecimento parecem se ressentir de noções de história, de saber um pouco sobre raízes de identidades culturais, que podem, por exemplo, desmascarar a realidade das nossas relações.

O próprio Mino adota uma expressão para contaminar de história a noção de classe dominante, os endinheirados, que ele chama de ‘herdeiros da Casa-Grande’, em referência à divisão entre Casa-Grande e Senzala nos engenhos coloniais do passado. No Brasil, ainda se constrói apartamentos e casas com ‘quarto de empregada’, o que também não deixa de ser um resquício das relações que preferimos desconhecer.

Um livro que trata das matrizes de relações sociais no País e merece ser lido por qualquer profissional ou estudante que queira ter mais espírito crítico é ‘O Povo Brasileiro’, do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro (1922-1997). As livrarias têm duas edições, uma delas de bolso, impressas a partir da versão consolidada por Ribeiro pouco tempo antes de sua morte.

‘O Povo Brasileiro’ foi escrito e reescrito desde que seu projeto foi concebido nos anos 50. Já no início era uma obra pretensiosa. Ribeiro a buscava como “um retrato de corpo inteiro do Brasil, em sua feição rural e urbana, e nas versões arcaica e moderna, naquela instância que, a meu ver, era de vésperas de uma revolução social transformadora”, afirma no prefácio, referindo-se ao espírito de mudanças que no início dos anos 60 levou João Goulart (1919-1976) ao poder. Seu governo, no entanto, sucumbiu ao golpe militar de 1964, o que liquidou os projetos populares no País.

Assim como Ribeiro o escreveu várias vezes, o leitor também terá a necessidade de revisitar esse livro. Não se trata apenas da quantidade e importância das informações, mas o quanto elas impactam em nossa noção das coisas.

Na minha releitura, levei para o pensamento uma ideia sobre ‘antropofagia’ que Ribeiro apresenta na página 47 da edição de 1995: entre os índios do início do período colonial, seus prisioneiros de guerra eram transformados em ‘paçoca’, uma iguaria de carne e farinha de mandioca, e servidos em banquetes. Não sei por que, mas sempre achei que a nossa antropofagia fosse menos elaborada.

O Povo Brasileiro,

Darcy Ribeiro, Companhia de Bolso, SP, 2006, 440 págs., R$ 31.

 

 

Foto: Cristina Zappa/Divulgação

Gilberto Freyre e o mito da democracia racial no Brasil

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será realizada de 4 a 8 de agosto, vai render este ano homenagens ao livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). A obra será debatida na conferência de abertura e em mais três encontros, reunindo seus estudiosos, como o cientista político e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a encara como perene, duradoura.

O aspecto central do livro está em sua contribuição para a investigação da identidade brasileira, afinal, ainda hoje é difícil dizer quem é o brasileiro. A primeira edição foi lançada em 1933. Desde então, mais de 50 edições foram publicadas. A obra é apreciada nos círculos acadêmicos, como objeto de teses e dissertações.

Muitas dessas produções versam sobre seu caráter dualista: de um lado, Freyre revela como pensava e agia o colonizador a partir de 1532, quando efetivamente começou o processo de ocupação do país; de outro, mistifica o desenvolvimento da sociedade, colocando o negro em uma posição de superioridade cultural em relação ao índio naqueles tempos.

Neste trecho, Freyre mostra seu lado mitológico: “As populações de origem negra, na Bahia por exemplo, não têm aquele ar sorumbático dos populares sertanejos do Nordeste, quando de origem principalmente indígena. Na Bahia, tem-se a impressão de que todo dia é dia de festa”.  Por essa linha, o escritor sustenta que o negro foi “o maior auxiliador do branco” na empreitada colonizadora do país, chegando a ver o Brasil como uma democracia racial.

Atualmente, a crítica à obra tende a reconhecer uma interação entre os aspectos críticos e míticos do livro, que são vistos como elementos formadores de uma política da memória para um país que se mostra carente de história. “Tal política visaria fazer um ajuste de contas com o trauma da escravidão”, afirma Alfredo César Melo, professor-assistente de literatura lusófona na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, em artigo sobre o livro. Para Melo, esse movimento reflete a característica da cultura brasileira de equilibrar antagonismos.

O livro vale também pelos registros históricos de hábitos e comportamentos do brasileiro, que revelam a origem de coisas que nos rodeiam hoje. Esse é o caso da tapioca e outras iguarias da culinária brasileira. “Não é só em relação ao beiju (tapioca), mas a tudo quanto é comida indígena, a Amazônia é a área da cultura brasileira mais impregnada de influência cabocla: o que aí se come tem ainda gosto de mato”.

Casa Grande & Senzala,

Gilberto Freyre, Global Editora, 2006, SP, 726 págs.

Leia o artigo do prof. Alfredo César Melo:

http://migre.me/Vyr2



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