Amor seduz e destrói lá no interior do Pará
14/11/2011 2 Comentários
O leitor que aprecia romances que vão para a tela do cinema encontrará em ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’, do escritor paulista Marçal Aquino, uma narrativa envolvente e ironicamente filosófica, criada em torno de um triângulo amoroso em uma cidade no interior do Pará, onde conflitos entre garimpeiros e uma empresa mineradora dão o contexto de vidas fervilhantes, que se defrontam com loucura, violência e morte.
O filme, com o mesmo título, rendeu na última quarta-feira à atriz Camila Pitanga, que interpreta a ex-prostituta Lavínia, o troféu de melhor atriz do 8º Amazonas Film Festival, em Manaus. A crítica tem considerado que as cenas intimistas, de uma nudez como nunca vista, revelam a atriz em seu melhor momento.
A estreia em circuito nacional desse trabalho dos cineastas Beto Brant e Renato Ciasca será em março. Por enquanto, o filme cumpre agenda de exibições especiais – passou por mostras em São Paulo e Recife, e será apresentado no festival Cinema Iberoamericano de Huelva, na Espanha.
Beto Brant e Marçal Aquino são parceiros. O filme ‘O invasor’, de 2001, com Malu Mader e o roqueiro Paulo Miklos, tem roteiro de Aquino, que depois também publicou uma novela com título homônimo. Em 2009, Brant lançou o filme ‘O amor segundo B.Schianberg’, também inspirado em ‘Eu receberia as piores notícias…’. O romance tornou-se, assim, referência para dois projetos de Brant.
O livro, lançado em 2005, é narrado por um fotógrafo de São Paulo, chamado Cauby, como o cantor, que vai ao Pará cumprir um projeto internacional para a elaboração de um livro com fotos de prostitutas em torno do garimpo. É nesse contexto que ele conhece a bela Lavínia, com quem vive uma paixão febril e destruidora. Lavínia é casada com um pastor, e a tragédia que recorta suas vidas coloca para o leitor questões em torno do amor e da morte.
O texto é permeado por especulações, e a ironia de Aquino foi colocar essas ideias sob autoria de um escritor imaginário, Benjamin Schianberg, que teria escrito o livro de auto-ajuda ‘O que vemos no mundo’. Essa ironia chegou a surpreender Aquino, que foi procurado por uma editora que desejava entrar em contato com o suposto autor.
A narrativa toma força ao construir uma imagem sedutora de Lavínia, que tem uma personalidade dupla, oscilando entre depressão e paixão. Já no começo da leitura, a forma como sua expressão e beleza encantam o narrador me fez lembrar o romance ‘Betty Blue – 37,2º de manhã’, do francês Philippe Djian. Encontrei algumas coincidências entre as histórias: a casa que se incendeia, a cidade que arde sob o calor, a chaleira no fogo, o desejo de ter filho como elemento da loucura da mulher, personagens que perdem um olho e, principalmente, a técnica narrativa que envolve o leitor, o faz apaixonar-se por Lavínia e Betty Blue.
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,
Marçal Aquino, Companhia das Letras, SP, 2005, 228 págs.


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Há livros que são meros retratos de uma época e surgem e desaparecem sem deixar rastro, abandonados como o jornal velho, que no máximo serve para embrulhar peixe. Outros, no entanto, atravessam civilizações, irrompem no tempo e se fixam nos emblemas da cultura, louvados como eternos – lidos e relidos a cada geração, produzindo interpretações conforme a época e os costumes.
Opinião do leitor