Frases ao avesso de Drummond revelam verdades com humor
04/04/2011 Deixe um comentário

Drummond era reconhecido pelo valor de sua obra poética
O uso da linguagem falada ou escrita cumpre no dia-a-dia a função de esconder as coisas, em vez de revelar. É assim, por exemplo, quando nos vemos em uma situação de conquista amorosa. Em vez de mostrar ao outro o real desejo, criamos motivos que nos mantêm perto dele ou dela, mas sem desnudar as intenções, preferindo que a nossa intimidade seja alcançada pouco a pouco, na medida em que a pessoa demonstra reciprocidade às nossas ideias. Isso é o que chamamos de jogo do amor.
Mas no caso do livro ‘O avesso das coisas, aforismos’, do poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, o jogo proposto com a linguagem é justamente o contrário – revelar as coisas. O livro foi publicado originalmente em 1988, e era uma das várias obras inéditas que ele deixou ao morrer, um ano antes. O título é uma coleção em ordem alfabética de frases, pensamentos, que poderiam ser chamados de ‘máximas’, mas, como parecem estar pelo avesso, são ‘mínimas’.
O gênero literário dos ‘aforismos’ seduz os escritores desde os antigos moralistas e Drummond se propõe a tomar parte nessa tradição. Oscar Wilde também era mestre na arte. É dele a frase: “As piores coisas são feitas com as melhores intenções”. Fernando Pessoa teve contribuições: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. No caso de Drummond, o livro é um avesso dele próprio, já que ele se notabilizou por sua obra poética, que não deixa de ser o avesso de alguma coisa… “A poesia força as palavras a dizerem o contrário do que elas pretendiam”, afirma ele no livro.
Drummond confessa no prefácio o caráter desprezível da obra. “Andei reunindo pedacinhos de papel onde estas anotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor”. A obra é emblemática do lado humorístico do poeta, mas por sua franqueza, não deixa de representar o exercício do próprio escritor, que é revelar aquilo que o cotidiano esconde e abrir novos horizontes para o pensamento.
Ao ler ‘O avesso das coisas’, lembrei o tempo todo de uma frase de Drummond no livro ‘Confissões de Minas’, de 1944, que vale como dica para quem deseja aprimorar a escrita: “À medida que envelheço, vou me desfazendo dos adjetivos. Chego a ver que tudo pode se dizer sem eles, melhor que com eles”.
Confira algumas frases de ‘O avesso das coisas’:
Amor – Amar sem inquietação é amar sem amor.
Diabo – É cada vez mais difícil vender a alma ao diabo, por excesso de oferta.
Felicidade – Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.
Homem – O homem foi criado a imagem e semelhança do seu Criador, para agir ao contrário dele.
Pênis – O mérito do pênis é independente do mérito de quem o porta.
Sexo – O ato sexual começa por não ser um ato, mas uma convulsão.
Solidão – A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.

O avesso das coisas, aforismos,
Carlos Drummond de Andrade, ilustrações de Jimmy Scott, ed. Record, RJ, 170 págs.
Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br.
Fotos: Divulgação
Uma história da malandragem paulistana, que se ambienta em salões de sinuca no início dos anos 60, embala as desventuras de três amigos que saem em busca de partidas em vários bairros da cidade para superar a falta de dinheiro.
O ser humano lida no dia a dia com certezas que parecem conduzir a vida prática e lhe proporcionam a impressão de que tudo está no lugar. É o que muitos chamam de zona de conforto. Quando os problemas surgem, no entanto, é necessário rever conceitos e elaborar uma nova representação para aquilo que antes era dado como certo e que se mostrou mera ilusão.

Desde o século 19, as ciências humanas se desenvolvem por meio da descoberta de fatos ou fenômenos que estão escondidos da percepção e do conhecimento das pessoas. Isso é o que os estudiosos chamam de ‘inconsciente’ ou ‘memória inconsciente’, que se manifesta, por exemplo, em esquecimentos, lapsos de linguagem durante a fala e atos falhos. Todas essas expressões são ‘sinais’ dos conteúdos guardados nas profundezas da mente e algo do qual não nos damos conta. 


Opinião do leitor