Prosa mostra a afeição de Fernando Pessoa à crítica política

Fernando Pessoa

O escritor português Fernando Pessoa (1888-1935) é famoso pela força expressiva de sua poesia e consagrado entre os maiores poetas do século 20, mas sua obra em prosa não é menos importante para que o leitor navegue no universo de múltiplas personalidades – os chamados ‘heterônimos’ – que compõem diferentes visões do mundo em cada texto.

Pessoa escreveu contos, análises políticas, filosóficas, todas como espelho de sua inquietação e capacidade de levar o pensamento para além dos limites do senso-comum. Uma boa seleção desses textos, que pode ser um subsídio para quem vai se aventurar na exposição ‘Fernando Pessoa, plural como o universo’, no museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, é o livro ‘O banqueiro anarquista e outras prosas’, organizado pelo professor Massaud Moisés, da Universidade de São Paulo (USP), onde deu aula até 1995.

O livro traz três textos de ficção – ‘O banqueiro anarquista’, ‘O marinheiro’ e ‘Do livro do desassossego’ – e mais ensaios de filosofia, estética, política e cartas de amor. A primeira história é considerada de importância capital para se conhecer a obra de Pessoa. Em um livro chamado ‘Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge’, o professor Moisés escreve sobre ‘O banqueiro anarquista’: “Não parece exagero acreditar que ali se encontraria um dos seus textos fundamentais, como poeta, prosador e interveniente na realidade cultural de seu país -, e ele decerto o sabia”.

O título do conto parte de um contra-senso, um paradoxo, já que ‘banqueiro’ e ‘anarquista’ são dois modos de ser que não se relacionam. Mas em um jantar que oferece ao narrador, o banqueiro anarquista prova o impossível: o quanto sua posição de banqueiro nada tem de conflituosa com sua atuação como verdadeiro anarquista, dedicado à causa de libertar a humanidade “da tirania das ficções sociais”, escreve. Por ‘ficções’, Pessoa designa o conjunto de normas e convenções que regula a vida social, como o dinheiro, os governos, as igrejas, as instituições.

Pessoa constrói um diálogo que remete o leitor a uma expressão da Grécia Antiga, a sofística – fenômeno na área da Filosofia em que seus atores teciam discursos sem compromisso com a verdade, para enganar e entreter o interlocutor, querendo demonstrar que tudo se podia provar com a argumentação. Segundo o professor Moisés, essa referência à antiguidade consolida a obra como ficção com viés de crítica política: “Acompanhamos, assim, banquete sofístico, em que se busca provar o improvável, à semelhança de todo o discurso político fundamentado, por essência, no sofisma. É o discurso da política, destinado a persuadir e ludibriar, que Pessoa tem em mira com a cavilosa [enganadora] retórica do banqueiro”.

O mundo fragmentário de Bernardo Soares

Vale também destacar a importância do texto ‘Do livro do desassossego’, que reúne excertos da sua obra maior – ‘Livro do desassossego’-, de autoria do semi-heterônimo Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros em Lisboa, que Pessoa define como uma mutilação de sua personalidade. “Sou eu menos o raciocínio e a afectividade”, afirma. Nesse texto, que é uma obra fragmentária, o leitor poderá encontrar frases do escritor como estas: “A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência”, ou ainda “Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”

O banqueiro anarquista e outras prosas,

Fernando Pessoa, Ed. Cultrix / Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), SP, 1988, 235 págs.

Esta obra pode ter trechos consultados no Google Livros.

Consulte também a biblioteca online de Fernando Pessoa.

Machado e Pessoa podem ser copiados na Web sem custo

Machado de Assis

Para ter acesso à boa leitura nem sempre é preciso gastar dinheiro. A obra de grandes escritores como Machado de Assis (1839-1908) e Fernando Pessoa (1888-1935) está disponível integralmente para o leitor, sem custo, no site Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação para incentivar a troca de conhecimentos entre professores, estudantes, pesquisadores e a população em geral.

O acervo é composto por títulos que se encontram em domínio público – obras culturais sem a necessidade de pagamento de direitos autorais – ou receberam licença dos detentores dos direitos para serem divulgados de graça. As obras, segundo a lei, caem em domínio público depois de 70 anos do falecimento do autor, ou antes, se não houver herdeiros.

No site também podem ser copiados arquivos MP3 de música erudita, com execução da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal Fluminense, e obras como as de William Shakespeare (1564 – 1616), que escreveu a famosa peça Romeu e Julieta, e a Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321). Este, aliás, é o título mais procurado, com mais de 1,1 milhão de cópias desde que o site foi criado em 2004.

Fernando Pessoa

Entre os dez títulos mais acessados estão também o romance Dom Casmurro, de Machado, e um livro de Pessoa intitulado O Eu profundo e os outros Eus, escrito em 1913.

Dom Casmurro é sem dúvida o romance mais famoso de Machado, é a história que notabilizou a personagem Capitu e seu olhar de ressaca, “oblíquo e dissimulado”, como um sinal da ambigüidade que permeia o enredo, um suposto triângulo amoroso sem que jamais se possa saber o que houve entre Bentinho, Capitu e Escobar.

Já o livro de Pessoa traz dois poemas dramáticos – Na Floresta do Alheamento e O Marinheiro – que são especulações sobre a constituição do ‘Eu’, sobre os desejos que nos colocam na perspectivas de diferentes realidades e fazem com que a nossa personalidade seja dupla, ambígua e contraditória.

Neste trecho, por exemplo, Pessoa foca a relação entre o ‘Eu’ e o outro: “E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser. . .”

Dom Casmurro, Machado de Assis, 1899.

O Eu profundo e os outros Eus, Fernando Pessoa, 1913.

Onde Encontrar: Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br).

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