Romance conta saga de nação brasileira afro-descendente
09/06/2010 Deixe um comentário
Halime Musser – Da Approach
No romance Oiobomé, o escritor e compositor Nei Lopes imagina a trajetória da nação homônima instalada na Ilha de Marajó desde sua fundação, no início do século 19, até os dias de hoje. No país, ex-república e hoje uma monarquia constitucional e hereditária (regida pela Constituição de 1953), a taxa de analfabetismo é nula, sua moeda, o escudo oiobomense, permanece estável há anos, os vícios em álcool e em tabaco foram erradicados há mais de duas décadas, o último crime ― o furto de um livro ― foi em 1942 e a união entre pessoas do mesmo sexo é amparada e reconhecida pela lei. Recentemente, o país, o mais desenvolvido das Américas, descobriu a cura para o câncer e para a aids “e a cura da anemia falciforme já está sendo anunciada”. Oiobomé é um país democrático, igualitário e justo. Oiobomé não existe.
O ponto de partida da obra é a fuga do alforriado Francisco Domingo Vieira dos Santos, o Dos Santos, da Corte para o norte do país. Temendo retaliações devido a seu envolvimento com os inconfidentes de Vila Rica, ele parte para a região onde hoje é o estado do Pará. Lá, cria laços com quilombolas e índios locais, também vítimas da perseguição e repressão do governo, e junto a eles funda, na ilha de Marajó, a república de Oiobomé, uma homenagem ao império iorubá de Oyó (ao qual pertencia sua mãe), na atual Nigéria, e o reino de Abomé, hoje Benin, no qual o seu avô paterno ocupava o nobre cargo de ministro do rei.
Com o rápido crescimento do núcleo de resistência criado por Dos Santos, aos poucos o esboço de um governo ― com leis, constituição e decretos ― vai sendo moldado, e alguns anos depois de criada Oiobomé já é uma nação consolidada e forte, com sistema de esgoto, escolas, redes de distribuição e escoamento de mercadorias, hospitais e moeda local. De modo que quando as autoridades e a Igreja resolvem intervir efetivamente, já é tarde demais: sua localização geográfica favoravelmente segregada e seu exército fortificado (graças a armamentos e munições francesas trazidas à ilha por traficantes ingleses vindos do Caribe) tornam Oiobomé inexpugnável. Os ecos da revolução ao norte do país são ouvidos no mundo todo, e inspiram inclusive o militar venezuelano Símon Bolívar em sua luta pela independência americana.
O país vai atravessando gerações, se destacando nos mais variados campos: na educação, ao reduzir a sua taxa de analfabetismo a zero, ele é pioneiro; na segurança, é exemplar; na saúde e na medicina, ao erradicar diversas doenças, é louvada; e na economia, com sua moeda forte e estável, é referência.
Oiobomé é um interessante e minucioso ensaio sobre utopia, democracia, ufanismo e preservação da identidade cultural. Por meio da história de uma nação que se desenvolveu e progrediu nos mais diversos campos sem jamais esquecer de sua herança multicultural e de suas raízes afro-indígenas, Nei Lopes oferece ao mesmo tempo uma reflexão e uma denúncia de dois Brasis: o real, pré-colonização, e o simbólico, formado e constituído a partir desse, que, cada vez mais preocupado com o futuro, menospreza seu passado, deixando de prestar as devidas contas com seu background multiétnico.
Sobre o autor
Nei Lopes é cantor e compositor da música popular brasileira. Além disso, ele é também um dos maiores estudiosos da cultura afro-brasileira e africana no Brasil, tendo publicado livros como Enciclopédia da diáspora africana e Kitábu, considerados referências obrigatórias para os estudos africanistas no país.
Oiobomé,
Nei Lopes, Editora Agir, SP, 2010, 224 págs.


Opinião do leitor