Historiador investiga vida de camponês julgado pela Inquisição
11/12/2010 2 Comentários

Ginzburg: olhar pelo ‘microscópio’ da história
A expressão ‘morrer pela boca’, que se refere à pessoa que fala e fala até se comprometer de forma irreversível, tem um exemplo literal no livro ‘O queijo e os vermes’, de 1976, do historiador italiano Garlo Ginzburg, que esteve no início do mês em visita ao país.
O livro traz a história de Domenico Scandella, também conhecido por Menocchio, um moleiro [operador de moinho] que vivia em uma pequena aldeia chamada Montereale, na região de Friuli, norte da Itália, durante o século 16.
Menocchio sofreu dois processos da Santa Inquisição por criar teorias “heréticas” sobre Deus e a religião, compondo um sistema complexo que Ginzburg chama de “eclesiologia” – uma doutrina independente da tradição cristã.
Já no início do primeiro processo, o moleiro revela sua compulsão pela fala, declarando que não se importaria de morrer se pudesse contar sobre suas teorias para autoridades como o papa ou um rei. Mas isso acaba acontecendo na prática diante dos juízes da Santa Inquisição.
Os depoimentos de Menocchio foram extensamente documentados na época, e Ginzburg os encontrou por acaso, quando fazia uma pesquisa sobre curandeirismo e bruxaria na Idade Média.
O livro é, portanto, uma análise desses documentos e um exemplo do que atualmente é conhecido por ‘micro-história’, tipo de estudo da história que se caracteriza por uma espécie de olhar em microscópio, o que Ginzburg faz ao contar a trajetória de Menocchio.
O conjunto de teorias que o moleiro confessa à Inquisição tem por base a ideia de que Deus está nos elementos da natureza e que o mundo se organizou a partir do caos, ao modo da massa do queijo, que exposta ao tempo cria vermes – na analogia de Menocchio, os vermes do universo seriam os anjos.
A religião de Menocchio não tem hierarquia, e é também uma voz de libertação dos camponeses, contaminada pela tradição pagã. Ginzburg conta a história de Menocchio, no entanto, sem imprimir a ela rótulos rápidos, como a tendência a reconhecê-la como expressão do Renascimento.
Ao interpretar a vida do moleiro, o historiador levanta hipóteses e vai rebatendo cada uma delas, comparando o discurso com as obras que ele declara ter lido, como o Alcorão e o Decameron, este último do escritor Boccaccio, em 1350. Nesse percurso, Ginzburg descobre que o moleiro imprime sua imaginação às obras lidas, sobrepondo ao texto elementos da tradição oral camponesa e distorcendo os dados em função de seu desejo.
O mundo sob a ótica da tradição pagã
Neste trecho, Ginzburg sintetiza a perspectiva das teorias de seu personagem:
“Com seu silêncio, Menocchio pretendia frisar para os juízes, até o último instante, que seus pensamentos haviam surgido no isolamento, em contato exclusivo com os livros. Contudo, nós já vimos que ele projetava sobre a página impressa elementos tirados da tradição oral. É essa tradição, profundamente radicada nos campos europeus, que explica a persistência tenaz de uma religião camponesa, intolerante quanto aos dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, fundamentalmente pré-cristã.”
O queijo e os vermes, o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição,
Carlo Ginzburg, tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras, SP, 2009, 253 págs.
Foto: Divulgação
PS (28/12/2010): Entre os livros que influenciaram Menocchio, o Decameron foi recriado no cinema pelo polêmico diretor e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, em 1970. Os contos que compõem essa obra foram tirados por Boccaccio da tradição oral, como o do trecho abaixo do filme, que dá um exemplo do que é uma história pagã:
Em uma história aparentemente sem pé nem cabeça sobre um cavaleiro medieval que não existe – o que existe é uma armadura vazia que pensa e age como alguém racional, metódico, enfadonho e que tem uma voz metalizada – o escritor Italo Calvino (1923-1985) pouco a pouco leva o leitor a reflexões sobre a condição do homem contemporâneo, seu ‘vazio’ diante de das exigências da sociedade ou dessa necessidade que temos no dia a dia de manter uma imagem para os outros, o que às vezes nos custa tão caro.
Opinião do leitor