Um desafio literário com a bola no pé

Mauro Rosso é escritor e pesquisador de literatura brasileira

O futebol é amplamente identificado com a cultura brasileira, mas isso nem sempre foi assim. Nos primeiros tempos do esporte bretão, no início do século passado, havia uma intensa polêmica contra e a favor à sua prática, que mobilizava escritores e intelectuais.

Dois expoentes dessa discussão foram o carioca Lima Barreto (1881-1922) e o maranhense Coelho Neto (1864-1934), cada um em uma extremidade da briga no cenário do Rio de Janeiro.

A história desse relacionamento pouco amigável pode ser conferida no livro ‘Lima Barreto versus Coelho Neto, um Fla-Flu literário’, do escritor, pesquisador e professor de literatura Mauro Rosso, que reúne textos dos autores entremeados por seus comentários.

Enquanto Barreto atacava com ironia o esporte, denunciando sua prática elitista, vedada aos negros e pobres, Coelho Neto tornou-se porta-voz do futebol, desempenhando papel de entusiasta entre os cartolas do Fluminense, um dos primeiros clubes do País.

Mas não é só futebol que está em questão, visto que os desafiantes pertencem a correntes literárias diferentes. Enquanto Barreto exerce uma literatura social, recheada de ironia, crítica e de características pré-modernistas, como as expressões da linguagem popular em seu texto, Coelho Neto é parnasiano – um prolixo e enfadonho escritor, mais preocupado com o efeito sonoro das palavras do que em espelhar na linguagem a angústia, a realidade humanas, enfim, temas próximos dos escritores.

O livro de Rosso, originalmente uma dissertação na universidade, é assim um delicioso embate literário e futebolístico que contempla o leitor que também tem interesse em história da crônica e do jornalismo.

Lima Barreto esgrimia sua pena em revistas e jornais, sobretudo nos que estavam identificados com a imprensa alternativa. Um dos alvos prediletos de Barreto era a violência no campo e com as torcidas, algo pouco diferente do que é hoje.

Já Coelho Neto gozava de reputação social com a grande imprensa. O aspecto curioso, do ponto de vista do julgamento da história, é que Barreto, apesar de equivocado quanto ao futebol, está eternizado em sua obra, enquanto o outro ficou esquecido.

O futebol no Brasil foi divulgado graças aos ingleses que moravam no Rio de Janeiro e em São Paulo. As correntes predominantes de pensamento na época passavam pela eugenia, ou seja, acreditava-se que era possível produzir uma ‘raça pura’, saudável, que pudesse colocar sob esquecimento nossas raízes oriundas dos conflitos sociais desde a colonização.

O início do século 20 assistiu assim a um boom de clubes e de culto ao esporte, que os governos prontamente instrumentalizaram. As partidas importantes eram custeadas com dinheiro público, segundo as suspeitas de Lima Barreto, enquanto Coelho Neto defendia o futebol como uma prática cívica, e usava seu discurso para revestir as ações da então elite esportiva.

Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário,

Mauro Rosso, editora Difel, Rio de Janeiro, 2010, 239 págs.

Foto: Divulgação

Leitor prefere autores que discutem a alma brasileira

A coluna e o blog Livros & Ideias completam um ano amanhã, 12 de abril. Nesse período, foram publicados no Metrô News, na Folha Metropolitana e na internet 56 artigos, com o compromisso sempre de indicar ao leitor um bom livro, não importando se o título é lançamento ou não, já que atualmente com os sebos virtuais e com o livro eletrônico, o e-book, é possível encontrar praticamente qualquer obra editada.

Gilberto Freyre é o mais lido do blog em um ano

Dos artigos publicados, 60% são de autores brasileiros e o restante, de estrangeiros. Essa divisão não chegou a ser planejada, mas procura espelhar a tendência do leitor, que prefere as obras da literatura brasileira e, mais do que isso, aprecia o trabalho de escritores que investigam e discutem a questão das identidades culturais, ou da alma do brasileiro.

‘O que é ser brasileiro?’, portanto, é uma pergunta que chama a atenção do leitor atualmente, ainda que essa questão seja pouco discutida fora do circuito da mídia alternativa, do cinema e da literatura. Os escritores Gilberto Freyre, Lima Barreto, Câmara Cascudo, João Antônio e Frederico Pernambucano de Mello concentram 22% das leituras do blog em um ano. São autores que, cada um a seu modo, tentam desvendar a identidade, a maneira de ser de um povo que tem múltiplas faces e máscaras na cultura.

No topo da preferência do leitor, com 7% das consultas no ano, Gilberto Freyre mostra com ‘Casa Grande & Senzala’ (Global Editora, 727 págs.) que sua obra ocupa cabeceiras, vai e volta ao interesse do leitor porque é um livro feito de muitos livros – as páginas sobre a culinária, por exemplo, são um inventário sobre as nossas tradições mais arraigadas. “Na tapioca de coco, chamada molhada, estendida em folha de bananeira africana, polvilhada de canela, temperada com sal, sente-se o amálgama verdadeiramente brasileiro das tradições culinárias…”, escreve.

Para ler Gilberto Freyre, é importante perceber que ele conta a história da colonização do ponto de vista do engenho, do senhor do engenho. Outro viés conservador está no mito da democracia racial, que encobre a violência e os conflitos que marcaram a nossa história. Esse mito, no entanto, é ao mesmo tempo um resgate do orgulho de ser brasileiro e essa ambigüidade entre as coisas acaba proporcionando uma riqueza de significações à obra.

Lima Barreto é o mais lido em 30 dias

Já nas estatísticas do blog nos últimos 30 dias, desponta o escritor Lima Barreto como o mais lido, com 15% das consultas. No mercado, Lima Barreto passa por um momento de revalorização graças ao relançamento de duas de suas obras – ‘Diário do Hospício’ e ‘Cemitério dos vivos’ – e também de livros de comentaristas. A obra do escritor, em formato digital, pode ser consultada no site Domínio Público, do Ministério da Educação: http://www.dominiopublico.gov.br/.

Foto: Divulgação

Com a pena de Lima Barreto, conversa de boteco ganha peso literário

Lima Barreto foi crítico sagaz da sociedade carioca

Quem acha que conversa de bar não pode ser literatura está redondamente enganado. Um dos contos clássicos da literatura brasileira – ‘O homem que sabia javanês’, de Lima Barreto (1881-1922) – é justamente um conversa em uma confeitaria, no início do século 20 no Rio de Janeiro, que se desenrola a base de cerveja.

É claro que há infinitos exemplos de conversa de boteco nas letras, mas esse conto é tributário da filosofia da malandragem nas artes. Com ele, o escritor e jornalista, que era crítico sagaz da sociedade carioca, esgrima com seu talento no gênero ‘picaresco’: histórias de malandragem, cujas raízes culturais remontam ao Renascimento e que no Brasil criaram um rico caldo de cultura.

Em um texto chamado ‘Dialética da Malandragem’, o crítico Antonio Candido observa que a história picaresca, em geral, é contada em primeira pessoa para que a realidade seja observada do ponto de vista do malandro-narrador. Outro aspecto é que esse personagem tem origem humilde e segue a vida ao sabor dos fatos, aprendendo com eles, mas sem se amarrar a conteúdos psicológicos.

No conto de Lima Barreto, o narrador inventa que sabe a língua malaio-polinésia para se passar por professor de um barão rico e pão duro que tem um livro em javanês, herança de seu avô, e quer cumprir um juramento de família, aprendendo o seu conteúdo. A investida do falso professor ganha assim o contorno de uma mentira em defesa da sobrevivência, como tantas vezes acontece na vida cotidiana.

Escritores recriam o malandro

O leitor encontrará inúmeras edições desse conto, antigas e recentes. Mas uma delas chama a atenção e só pode ser adquirida em sebos ou sob encomenda. Trata-se da edição da Editora Atual, que faz parte da coleção ‘Outras Palavras’. O livro traz contos de outros escritores, feitos a partir de ‘O homem que sabia javanês’. Esse exercício mostra quantas boas histórias podem ser feitas a partir de uma mesma ideia.

Os companheiros de Lima Barreto são Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio. Todas são histórias primorosas, e uma delas é hilária. O conto do mineiro Antonio Barreto é uma conversa de amigos no bar que explora a significação das palavras – como a diferença entre ‘conde’ e ‘visconde’, por exemplo – evidenciando os momentos de celebração, em que as palavras são puro artifício de prazer.

O homem que sabia javanês,

Lima Barreto, Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio, Editora Atual, Coleção Outras Palavras, SP, 1995, 76 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.

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