Novembro é o mês da Saramago, que completaria 88 anos no dia 16

O escritor e a esposa na época da elaboração de 'A viagem do elefante'

Novembro é considerado o mês do escritor José Saramago (1922-2010). Nesta terça, 16, ele completaria 88 anos se estivesse vivo. Este é o primeiro aniversário depois de sua morte, em junho, e por isso o escritor, detentor do prêmio Nobel de Literatura, está sendo lembrado em Lisboa com sessões comemorativas, conferências, dramatização de obras, lançamentos de livros, entre outros eventos.

Pilar Del Río, viúva de Saramago, escreveu um texto para homenagear o escritor e destacar a importância de seu pensamento político, em favor da igualdade humana. Ela afirma que “Saramago escrevia como se fosse um camponês: preparava a terra, adubava-a, limpava-a, semeava. Tudo a seu tempo, duas páginas por dia, sem impaciências, sem omitir um sulco, uma responsabilidade.”

No Brasil o mais importante registro do mês, e que trouxe a reflexão sobre sua vida e morte para os domínios de além-mar, foi o lançamento em 5 de novembro do filme ‘José e Pilar’, do diretor Miguel Gonçalves Mendes.

Em sua obra, Saramago está mais vivo do que nunca e um exemplo dessa vitalidade é o conto ‘A viagem do elefante’, publicado em 2008. O livro tem um pouco dos bastidores de sua elaboração retratados no documentário de Mendes, que traz para ao público cenas do cotidiano do escritor em sua relação com a esposa.

O tema central do livro é a morte, para a qual todo o destino carrega, mas essa reflexão não é feita sem uma dose de humor e irreverência, revelando a maturidade de sua narrativa inconfundível. A obra foi escrita quando Saramago já padecia com o corpo debilitado por sua doença, de tal modo que representa uma capacidade de enfrentar e rir da morte e, ao mesmo tempo, uma doação de si para o outro.

O livro conta a história da viagem de um elefante de Lisboa a Viena em 1551. O paquiderme pertencia ao rei de Portugal, D. João III, e foi dado como presente de casamento ao arquiduque austríaco Maximiliano II, que se uniu à filha do imperador Carlos V. Para cumprir sua missão, a comitiva delegada pelo rei enfrenta todo o tipo de sorte, meses a fio, cruzando Portugal, Espanha e Itália em uma rota que ficou conhecida a partir do livro e que, atualmente, é feita por turistas que admiram o escritor.

A ideia da história surgiu dez anos antes de sua edição, quando Saramago visitou um restaurante em Salzburgo, onde encontrou pequenas esculturas de madeira que representavam a viagem histórica. Foi então a partir de registros da época que Saramago compôs a obra, agregando ao conteúdo seu talento de ficcionista.

O elefante é uma metáfora da vida, do repetitivo processo de triunfo e esquecimento que perpassa o desejo humano. Salomão, o elefante, para se tornar presente do arquiduque, é resgatado de um cercado sujo e abandonado, depois de ter feito grande sucesso com o público quando foi trazido à cidade.

O rei e a rainha Catarina de Áustria têm o elefante como um estorvo: “…há mais de dois anos que esse animal veio da índia, e desde então não tem feito outra coisa que não seja comer e dormir…”, afirma ela. Quando o arquiduque, no entanto, aceita o presente, ambos experimentam um arrependimento, uma inversão do desejo, que os tornam caricaturas no exercício do poder, entre as várias contradições que dão sabor à história.

Confira este trecho do livro, quando o cornaca indiano descobre uma vila perto do acampamento de viagem:

“Aliviado da maior, o cornaca limpou-se o melhor que pôde com as ervas que cresciam ao redor, muita sorte teve de não haver por ali sempre-noivas, também chamadas sanguinárias, que essas o fariam saltar como se sofresse da dança de são vito, tais seriam os ardores e os picores que lhe atacariam a delicada mucosa inferior”.

A viagem do elefante,

José Saramago, Companhia das Letras, SP, 2008,256 págs.

Prosa mostra a afeição de Fernando Pessoa à crítica política

Fernando Pessoa

O escritor português Fernando Pessoa (1888-1935) é famoso pela força expressiva de sua poesia e consagrado entre os maiores poetas do século 20, mas sua obra em prosa não é menos importante para que o leitor navegue no universo de múltiplas personalidades – os chamados ‘heterônimos’ – que compõem diferentes visões do mundo em cada texto.

Pessoa escreveu contos, análises políticas, filosóficas, todas como espelho de sua inquietação e capacidade de levar o pensamento para além dos limites do senso-comum. Uma boa seleção desses textos, que pode ser um subsídio para quem vai se aventurar na exposição ‘Fernando Pessoa, plural como o universo’, no museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, é o livro ‘O banqueiro anarquista e outras prosas’, organizado pelo professor Massaud Moisés, da Universidade de São Paulo (USP), onde deu aula até 1995.

O livro traz três textos de ficção – ‘O banqueiro anarquista’, ‘O marinheiro’ e ‘Do livro do desassossego’ – e mais ensaios de filosofia, estética, política e cartas de amor. A primeira história é considerada de importância capital para se conhecer a obra de Pessoa. Em um livro chamado ‘Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge’, o professor Moisés escreve sobre ‘O banqueiro anarquista’: “Não parece exagero acreditar que ali se encontraria um dos seus textos fundamentais, como poeta, prosador e interveniente na realidade cultural de seu país -, e ele decerto o sabia”.

O título do conto parte de um contra-senso, um paradoxo, já que ‘banqueiro’ e ‘anarquista’ são dois modos de ser que não se relacionam. Mas em um jantar que oferece ao narrador, o banqueiro anarquista prova o impossível: o quanto sua posição de banqueiro nada tem de conflituosa com sua atuação como verdadeiro anarquista, dedicado à causa de libertar a humanidade “da tirania das ficções sociais”, escreve. Por ‘ficções’, Pessoa designa o conjunto de normas e convenções que regula a vida social, como o dinheiro, os governos, as igrejas, as instituições.

Pessoa constrói um diálogo que remete o leitor a uma expressão da Grécia Antiga, a sofística – fenômeno na área da Filosofia em que seus atores teciam discursos sem compromisso com a verdade, para enganar e entreter o interlocutor, querendo demonstrar que tudo se podia provar com a argumentação. Segundo o professor Moisés, essa referência à antiguidade consolida a obra como ficção com viés de crítica política: “Acompanhamos, assim, banquete sofístico, em que se busca provar o improvável, à semelhança de todo o discurso político fundamentado, por essência, no sofisma. É o discurso da política, destinado a persuadir e ludibriar, que Pessoa tem em mira com a cavilosa [enganadora] retórica do banqueiro”.

O mundo fragmentário de Bernardo Soares

Vale também destacar a importância do texto ‘Do livro do desassossego’, que reúne excertos da sua obra maior – ‘Livro do desassossego’-, de autoria do semi-heterônimo Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros em Lisboa, que Pessoa define como uma mutilação de sua personalidade. “Sou eu menos o raciocínio e a afectividade”, afirma. Nesse texto, que é uma obra fragmentária, o leitor poderá encontrar frases do escritor como estas: “A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência”, ou ainda “Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”

O banqueiro anarquista e outras prosas,

Fernando Pessoa, Ed. Cultrix / Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), SP, 1988, 235 págs.

Esta obra pode ter trechos consultados no Google Livros.

Consulte também a biblioteca online de Fernando Pessoa.

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