Encontro entre romance e conto com Bernard Malamud

Vênus de Urbino (1538) inspirou um dos contos de Malamud

A mistura de gêneros, o hibridismo, é um recurso que permite ao escritor reinventar a arte e deixar impressa na cultura sua marca. Um livro como ‘Retratos de Fidelman – Contos de uma exposição’, do escritor americano-judeu Bernard Malamud (1914-1986), é um exemplo desse exercício de libertação dos gêneros.

O livro é uma coleção de seis histórias independentes sobre um pintor e estudante de arte americano, chamado Arthur Fidelman, que vai à Itália para escrever uma monografia sobre o pintor Giotto (1266-1337). Os contos podem ser lidos ao sabor do leitor, mas seu conjunto adquire o contorno de um romance, fato que o escritor explicou em entrevista à revista Paris Review, em 1974, quando completava 60 anos.

O livro surgiu do primeiro conto, ‘O último dos moicanos’, uma desventura de Fidelman em Roma, que perde seu manuscrito sobre Giotto para Shimon Susskind, um refugiado judeu que o faz passar por um inferno enquanto procura o tal manuscrito.  “Depois que escrevi a história em Roma, tomei nota de ideias para diversos incidentes, na forma de um romance picaresco. Estava tentando me soltar da estrutura narrativa, experimentar um pouco”, disse Malamud.

Quando o escritor fala em ‘picaresco’, ele está se referindo a uma sucessão de fatos engraçados que com Fidelman tornam-se uma tragicomédia. Fidelman é um viajante que rapidamente perde seus valores morais para enfrentar a sobrevivência no outro país como batedor de carteira, gigolô, falsário ou o que mais surgir. Mas ele também é sempre humilhado, está sempre em posição inferior, uma espécie de perdedor permanente, cujo destino parece ser o fracasso.

No conjunto, as tragédias representam uma busca por respostas para ‘o que é a arte’ e ‘qual o sentido da vida’.  Um conto emblemático é ‘O nu despido’, em que Fidelman foge da polícia ao bater uma carteira e se abriga em um hotel de prostituição.  O pintor é feito de refém pelos malandros que controlam o hotel, um casal homossexual.

Ao saber que Fidelman é pintor, eles articulam um plano de roubar da galeria a ‘Vênus de Urbino’, de Ticiano (1473-1490). Fidelman pinta uma réplica para que pudessem trocar o quadro de madrugada. Na hora da troca, no entanto, Fidelman desiste e prefere ficar com o próprio quadro. Nesse momento de loucura, o sofrimento do processo de criação pelo qual o pintor-falsificador passou torna-se mais importante do que a obra de arte. Essa é uma discussão sutil que Malamud coloca para o leitor.

O escritor elaborou esse livro em intervalos, entre 1957 e 1968, convivendo com Fidelman durante 11 anos. Ele disse que fazendo assim pôde verificar o efeito da passagem do tempo em seu personagem.  Esse tempo mostra que Fidelman tem um pouco da cada ser humano, ao buscar descobrir sua vocação e identidade.

Retratos de Fidelman – Contos de uma exposição,

Bernard Malamud, tradução de Isa Mara Lando, Companhia das Letras, SP, 1987, 207 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br

Foto – http://en.wikipedia.org

Galileu Galilei protagoniza romance de escritor brasileiro

Foto: Antonio Henriqson
O físico, matemático e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) é o protagonista do romance de estreia de Gilberto Buchmann, do município de Campo Bom (RS) e autodidata em astronomia – o escritor mantém na internet uma cronologia astronômica que cobre 6 mil anos da história da humanidade, de 4.200 a.C. aos dias atuais.

Buchmann: fatos históricos e clima de suspense

No livro ‘O céu de Galileu’, Buchmann oferece ao leitor um romance histórico, em que a biografia de Galileu fornece os elementos para a construção da narrativa, toda ela recortada em planos temporais e de personagens, como num filme. Assim, a juventude de Galileu e seus últimos dias são dois percursos paralelos.  O conflito é motivado pela busca de um manuscrito do físico roubado pela Santa Inquisição, com cenas de suspense, crimes e perseguições, levando a história também para o gênero policial. Há ainda uma ação que se desenrola na Inglaterra e depois se cruza com o enredo principal.

Esse movimento de navegar entre os gêneros, mas sob um enfoque predominantemente histórico foi também uma característica que nos anos 80 permitiu grande sucesso ao romance ‘O Nome da Rosa’, do escritor italiano Umberto Eco. O título, aliás, marcou a estreia de Eco na literatura com uma história inserida na Idade Média e que virou filme, com o ator Sean Connery.

“Acontecimentos e personagens são inventados, entretanto dizem sobre a Itália da época coisas que os livros de história nunca disseram com tanta clareza”, afirmou Umberto Eco ao refletir sobre as razões que o levaram a escrever o romance. Essa declaração, que está num pequeno livro chamado ‘Pós-escrito a O Nome da Rosa’ (editora Nova Fronteira), serviria muito bem para o livro de Buchmann, que não esconde a intenção de encantar o leitor com fatos históricos.

É com esse espírito, por exemplo, que Buchmann narra o episódio da substituição do calendário Juliano, em 1582, para corrigir uma diferença em relação ao ano solar. Assim, por decreto do papa Gregório XIII, foram eliminados dez dias daquele ano: de 4 de outubro passou-se diretamente para o dia 15, implementando o que ficou conhecido por calendário gregoriano.

Outro momento interessante do livro está na contribuição de Galileu para o aperfeiçoamento dos instrumentos óticos de observação, como a luneta, que o permitiram fazer descobertas que acabaram por reforçar sua teoria heliocêntrica, contestada pela Santa Inquisição e que lhe custou um processo humilhante ao longo da vida.

“Galileu era dado a experimentar, demonstrar na prática o que ensinava, o que incomodava aqueles que se atinham estritamente a concepções teóricas e abstratas”, escreve Buchmann. Essa postura permitiu ao físico se tornar um dos pais da ciência moderna, contribuindo para a mudança dos métodos científicos, até então fundamentados no sistema aristotélico. O livro de Buchmann é também uma homenagem, já que o livro ‘Sidereus Nuncius’ (Mensageiro da Estrelas), obra capital de Galileu, completa 400 anos desde sua publicação em 1610.

O céu de Galileu,

Gilberto Buchmann, editora Arte Paubrasil – ‘A Girafa’, SP, 2010, 398 págs.

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