Cartas desvendam os segredos inusitados da arte de escrever

Helder Lima

Existe um gênero literário, chamado ‘epistolar’, que esconde tesouros sobre a arte de escrever. O termo refere-se a ‘epístolas’, ou ‘cartas’, nas quais os escritores revelam seus segredos, às vezes até sem querer. Alguns se notabilizaram pela densa produção, como os franceses Gustave Flaubert (1821-1880) e Marcel Proust (1871-1922), este último com suas missivas condensadas em 21 volumes.

No Brasil, um dos expoentes do gênero é o paulistano Mário de Andrade (1893-1945), ‘conspirador’ da Semana de Arte Moderna de 1922 que, segundo a professora da Universidade de São Paulo (USP) Walnice Nogueira Galvão, escreveu dez mil cartas ao longo da vida e recebeu oito mil, todas catalogadas pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), ligado à USP. “Não é todo o país que tem um correspondente literário desse porte”, afirma em entrevista à edição de março da revista SESCSP.

Algumas compilações podem ser encontradas nas livrarias, mas há preciosidades que estão esgotadas e só podem ser adquiridas nos sebos. É o caso de Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo, edição autorizada pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras em 1989. Até então, as missivas estavam em poder de d. Dhália Freire Cascudo, viúva do escritor que foi representante do modernismo no Nordeste.

Mário e Cascudo trocaram cartas entre 1924 e 1943. O livro traz 56 epístolas e dois bilhetes de Mário, conjunto que dá uma ideia de como um influenciou o trabalho do outro. “Gostei de saber que você (você tu) está folclorizando”, diz o escritor ao motivar o amigo de Natal (RN) a encarar os temas brasileiros, da cultura popular. “Você tem a riqueza folclórica aí passando na rua a qualquer hora”. Ainda hoje, Cascudo é a maior referência em investigação folclórica no país, tendo deixado uma obra com mais de 100 títulos.

Em 1927, Mário anuncia ao amigo o livro Macunaíma, talvez a sua maior contribuição à literatura brasileira, que ele próprio classifica de “romance ou coisa que o valha”.  O escritor explica que aproveitou lendas e tradições brasileiras, mas desprezou as referências geográficas para não ser tachado de regionalista. “Só uma descrição de macumba carioca, uma carta escrita por Macunaíma e uns dois ou três passos do livro são de invenção minha, o resto tudo são lendas relatados tais como são ou adaptadas ao momento do livro com pequenos desvios de intenção”.

‘Remandiola’

A seção de ‘Anexos’ reúne a correspondência em torno do bangalô em Natal doado pelo então ‘presidente’ do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, ao escritor paulistano. A ideia do político era vincular a imagem de Mário ao Nordeste. Mas veio a Revolução de 30, motivada pela absoluta corrupção que assolava o país, e o tal Faria caiu com a República Velha, cedendo lugar à ordem imposta por Getúlio Vargas.  Cascudo, que chama o episódio de ‘remandiola’, cuida para que o registro do imóvel na praia de Areia Preta seja anulado, livrando o paulistano ilustre de “ser incluído entre os cúmplices e aproveitadores dos Carcomidos’.

Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo,

Mário de Andrade, ed. Villa Rica, MG, 1991, 170 págs.,

Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br).

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