Plínio Marcos seduz o leitor com contos em forma de cantos

Helder Lima

Histórias densas e perturbadoras, que expõem a miséria de personagens reais e excluídas da sociedade brasileira, são o que o leitor vai encontrar na pequena coleção de contos Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos, do escritor e dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999).

A primeira edição desse título em formato de bolso é de 1977, época que em que o autor andava pelas ruas do centro de São Paulo vendendo exemplares de seus escritos. Plínio fazia o corpo-a-corpo com o leitor em restaurantes como Gigeto, Orvieto e Piolim, e também frequentava portas de teatros, feiras de livros, enfim, lugares onde pudesse encontrar pessoas interessadas em cultura. Certa vez ele disse: “Sabe, não é fácil vender livros em terra de analfabeto com fome”.

O título reúne três contos, tratando da situação carcerária humilhante de criminosos e da perda de identidade dos índios. O último conto é uma trilogia de histórias sobre os meninos que se aventuram nas peladas em busca de um lugar ao Sol no mundo do futebol.

As narrativas brincam com a repetição de palavras e frases. Esse jogo dá às histórias o ritmo de cânticos, cujo lugar vislumbrado acaba na morte ou na perda de algo importante na história do personagem, o que os psicanalistas chamam de ‘castração`. Ao sabor de um mantra, as palavras parecem martelar o pensamento, provocando o efeito de fazer o leitor orbitar em torno de algumas ideias centrais.

Veja este trecho: “Rola, rola, rola a bola, rola, rola, rola a bola e atrás dela ferozes meninos rolam desesperados, rolam suas esperanças, rolam, rolam, rolam todos aflitos, desesperados atrás da bola, em cada canto do campo atrás da bola, todos rolando desesperados suas esperanças, sem poderem mostrar o que sabem da bola que rola, que rola, que rola, e rola a bola”.

Com esse rodeio de palavras, o autor suplica a transformação de nosso modo de ver o mundo e sugere o lugar do outro, do oprimido, como o lugar de onde se possa experimentar a existência. Essa transformação requer certamente disposição para lidar com pensamentos perturbadores, que tocam tabus como a morte, a pedofilia, e tantas perdas associadas ao dia-a-dia da exclusão social.

Personagens do submundo

A perspectiva do oprimido é uma constante na obra de Plínio. Em um curso chamado Literatura Brasileira e Crime, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2008, a estudante Andrea Baruqui Lage escreveu em seu trabalho de fim de curso: “A temática social é o foco da sua escrita, os marginalizados pela sociedade e todos aqueles que não se enquadram nos padrões sociais ganham espaço em seu discurso. Prostitutas, malandros, presidiários, mambembes e pais-de-santo, transgressores e fazedores de arte são personagens de sua literatura sem cortes.”

Barrela

A obra inaugural de Plínio é a peça Barrela apresentada uma única vez em 1959, em Santos, sua cidade natal. Depois o texto ficou censurado por 21 anos. Plínio se inspirou no caso de um garoto, preso por besteira, que foi currado na cadeia. Ao sair, o garoto matou quatro dos caras que estavam na cela. “Fiquei tão chocado com esse negócio todo que escrevi a Barrela”, afirma ele na documentação oficial no site mantido por seus filhos (www.pliniomarcos.com). Segundo Plínio, “Barrela significa a borra que sobra do sabão de cinzas e que, na época, era a gíria que se usava para curra”.

Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos,

Plínio Marcos, ed. Do Autor, São Paulo, 91 págs.,

Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br).

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