Hilda Hilst costura linguagens e revela os desejos banais

Helder Lima

Nos início dos anos 90, a escritora paulista Hilda Hilst (1930 – 2004) publicou uma trilogia obscena que escandalizou os leitores. Parte da crítica passou a considerá-la erótica, mas esses livros não chegaram a representar um décimo de sua produção, e nem mesmo a classificação ‘erótica’ era apropriada aos temas que ela trata nessas obras.

Um dos livros da série é Contos D’Escárnio/Textos Grotescos, lançado em 1990 e que pode ser encontrado nas livrarias com reedição da Editora Globo. Nas entrelinhas de uma linguagem o mais chula quanto possível, Hilda faz uma costura da linguagem coloquial com valores da cultura que estão sedimentados e contra os quais não fazemos questionamentos, como, por exemplo, o teatro de Shakespeare, que ela toma por objeto de seu riso e escárnio.

A escritora também ousa uma quebra da estrutura do romance tradicional, que historicamente é conhecido por “romance burguês”, aquele que obedece a lógica do começo meio e fim. Em vez disso, ela prefere uma narrativa sem referências do tempo e que é marcada por várias vozes, o que o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Alcir Pécora, que escreve uma nota introdutória, classifica como “mistura babélica de línguas”.

Na prática, o livro é uma anarquia de gêneros que passa pela narrativa longa do romance, pelo conto, teatro e poesia. Brinca até mesmo com a forma das receitas, textos que em geral não têm qualquer pretensão literária.

A linguagem chula, que tanto chocou os leitores, no texto de Hilda é pautada por aquilo que muitas vezes pensamos e nem sequer cogitamos expressar verbalmente, já que parecem tão absurdas de serem comunicadas ao outro.

Na repetição das palavras, como ‘cona’, ‘pau’, ‘verga’ e tantas outras que alimentam o imaginário sobre a genitália humana, Hilda revela para o leitor as ideias banais que muitas vezes estão escondidas nas nossas intenções e desejos. Essa revelação certamente tem um caráter perturbador, já que ela nos faz pensar sobre a nossa própria insignificância.

O narrador é Crasso, alguém que é ao mesmo tempo ninguém. A mãe morreu no dia seguinte ao seu batismo e o pai morreu em cima de uma prostituta em um bordel. Crasso foi criado por um tio, Vlad, que, segundo Hilda, “morreu quando estava sendo chupado por um coroinha”. Essa capacidade de satirizar as situações permite à escritora navegar por assuntos tabus nos dias de hoje, como morte, sodomia, zoofilia e pedofilia. Crasso fala de cada uma dessas coisas sem a menor cerimônia.

A mudança de estilos é marcada por um livro que Clódia, namorada perversa de Crasso, ganhou em um manicômio onde foi presa, depois de ser vista em público pedindo para ver a genitália dos homens. Essa parte reúne receitas e peças de teatro. Outras inserções são os contos de Hans Haeckel, um escritor depressivo contumaz, e do próprio Crasso, que abordam sempre episódios bizarros.

Crítica ao Best-seller

Hilda avisa no começo da história que pretende fazer uma crítica ao mundo dos Best-sellers. “Bem, resolvi escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu”. Mais adiante, ela volta ao tema, agora com pura ironia: “Recolha num vidro de boca larga um pouco de ar de Cubatão e um traque do seu nenê. Compre uma ‘Bicicleta Azul’ e adentre-se algum tempo nas ‘Brumas de Avalon’. É uma boa receita se você quiser ser um escritor vendável”.

Contos D’Escárnio / Textos Grotescos,

Hilda Hilst, Editora Globo, SP, 2002, 136 págs.

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