Escritor resgata o ópio do massacre cultural do capitalismo

Helder Lima

O desenvolvimento da indústria e do capitalismo nos EUA e Europa, desde suas origens, impôs às sociedades ao redor do planeta um modelo de vida centrado no consumo de bens materiais, o que os norte-americanos chamam de ‘american way of life’. Esse sistema funciona como um rolo compressor sobre valores e tradições. A mercadoria e a necessidade do lucro tornam-se, elas mesmas, o valor maior que passa a referenciar o desejo e a conduta humana.

É contra esse estado de coisas que o jornalista, novelista, compositor e escritor Nick Tosches escreve A Última Casa de Ópio, lançado em 2002 nos EUA e em 2006 no Brasil pela Editora Conrad. O livro traz uma reportagem que inicialmente seria publicada na revista americana Vanity Fair, que trata de cultura, política e moda, e da qual Tosches era colaborador.

Nick Tosches

Tosches viaja aos países asiáticos para resgatar a história do que era uma tradição em seu país e na Europa do início do século 19, as casas para se fumar ópio. A droga é obtida com a seiva de uma planta chamada papoula, cultivada no oriente, e se espalhou pelo mundo por conta de suas propriedades medicinais.

A narrativa jornalística densa em informações é permeada por motivações pessoais. O escritor sofre de diabetes. “Minha incapacidade de manter sob controle essa doença mediante dieta, exercícios, medicamentos e evitando o estresse intriga os médicos, incluindo os melhores endocrinologistas. Só recentemente fui informado de que, entre seus muitos usos medicinais ancestrais comprovados – como cura para disenteria, asma, reumatismo etc. – o ópio foi considerado eficaz no tratamento de diabetes”.

Nos EUA, as casas de ópio foram disseminadas pelos chineses, que procuraram o país para trabalhar na construção de ferrovias e em mineração. Mas a papoula é conhecida há mais de cinco mil anos e desde a antiguidade é cultuada como uma panaceia, passando pelas civilizações do Egito, Mesopotâmia e Grécia. Mekone, cidade da Grécia Antiga, significa cidade das papoulas. O rio Mekong, que corta o sudeste asiático passando por Tibete, Mianmar, Camboja e Vietnã, entre outros países, também faz referência à planta.

Como uma tradição fora dos interesses da revolução cultural burguesa, as casas de ópio começam a sucumbir já no fim do século 19, perseguidas pela polícia e proibidas pelos governos. Segundo Tosches, muito do que se divulgava era fantasia, mas acreditava-se que as casas eram frequentadas por gângsters e pessoas do submundo. A última casa de ópio nos EUA foi fechada em Nova Iorque, em 1957.

Ao longo do texto, Tosches faz vários contrapontos entre a investigação da tradição do ópio e os símbolos dos valores da sociedade contemporânea, denunciando as mudanças provocadas pelo capitalismo. Em Bangcoc, capital da Tailândia, ele observa prostitutas se exibirem em um bar, ostentando garrafas de Coca na genitália. É como se ele encontrasse de tudo, menos casas de ópio. Na própria Tailândia, o escritor se vê cercado por restaurantes da rede norte-americana KFC e seus sanduíches de frango.

O massacre da cultura do ópio pelo capitalismo se dá duplamente. Enquanto as casas de ópio são fulminadas, a sede de lucros e o tráfico internacional transformam a papoula em heroína e morfina, dois derivados químicos perigosos e com alto poder aliciador, apesar de suas aplicações medicinais.

Cachimbo da paz
O ópio para fumar é processado em uma pasta conhecida como chandoo na Índia e no sudeste asiático. O cachimbo em geral é de bambu, mas há construções artesanais, que são os cachimbos imperiais, com marfim entalhado, ouro, jade e um couro especial chamado chagrém. Para extrair os vapores da pasta, é preciso também usar uma lamparina, uma haste e um raspador. Segundo Tosches, o ambiente é igualmente importante. O ritual deve ser feito em salas com esteiras e as pessoas deitadas de lado. Essa posição, aliás, é o traço que deu origem ao termo hip (que significa quadril em inglês), surgindo em 1904 para atravessar o século 20 com os hippies do jazz e depois do rock nos anos 60 e 70.

A Última Casa de Ópio,
Nick Tosches, Conrad Editora, SP, 2006, 93 págs.,
Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br);
Conrad: (www.lojaconrad.com.br).

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