Coleção de frases prontas investiga a fala do brasileiro

Helder Lima

Desde o século 19, as ciências humanas se desenvolvem por meio da descoberta de fatos ou fenômenos que estão escondidos da percepção e do conhecimento das pessoas. Isso é o que os estudiosos chamam de ‘inconsciente’ ou ‘memória inconsciente’, que se manifesta, por exemplo, em esquecimentos, lapsos de linguagem durante a fala e atos falhos. Todas essas expressões são ‘sinais’ dos conteúdos guardados nas profundezas da mente e algo do qual não nos damos conta.

Esse tipo de investigação marcou a literatura durante o Romantismo, passou também pela filosofia – um dos expoentes é o alemão Friedrich Nietzsche – e atingiu seu ponto alto com Sigmund Freud e Karl Marx. Com o conceito de ‘inconsciente’, Freud fundou a psicanálise, estudo que ainda hoje é das maiores referências sobre a alma humana. E Marx escreveu O Capital, revelando o que estava escondido sob as trocas comerciais no capitalismo.

O escritor Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), autor de 127 livros sobre a cultura e o folclore brasileiro e expressão do movimento Modernista no Nordeste – ele era de Natal (RN) –, encontrou material inconsciente para estudar a cultura brasileira nas frases feitas que falamos automaticamente no dia a dia, e reuniu 505 expressões em uma coleção de 1970 com o título Locuções Tradicionais no Brasil – Coisas que o Povo Diz, editada pela Universidade de São Paulo (USP) e Editora Itatiaia.

O inconsciente é politicamente incorreto e em muitos momentos nos manda rejeitar a velhice. Mas Cascudo quebra esse vínculo e resgata a fala dos mais velhos, para aprender com ela. “Na minha família, materna e paterna, as mulheres atingem a uma lúcida e assombrosa ancianidade. As avós e tias-avós foram as minhas Camenas [deusas dos mananciais, poços e fontes na mitologia romana] informadoras”, afirmou.

As locuções do livro foram condensadas ao longo de 60 anos. Cascudo não buscou as frases em suas pesquisas, mas observou pacientemente a fala das pessoas e registrou situações reais de comunicação para só depois sair em busca da origem. No livro não há nem mesmo uma organização por ordem alfabética. “A bibliografia utilizada foi complementar. As vozes antigas, murmurando as conversas incomparáveis, já constituíam a veracidade fundamental”.

Veja exemplos de locuções que são atuais:

Arranca-rabo – Significa briga, disputa e não tem variação no país, seja no interior ou no litoral. Antigamente, cortar ou decepar o rabo do cavalo do inimigo era um troféu guerreiro, de grande valia. Cascudo encontra a origem dessa expressão 14 séculos antes de Cristo, na civilização egípcia. “Arrancar o rabo ao cavalo de sela do chefe adversário era proeza comentada”.

Mequetrefe – Representa uma pessoa ordinária, comum, inferior. Em Portugal, significa “pessoa que se mete onde não a chamam: entremetida”. Mais recentemente, essa palavra também passou a ser usada para coisas ordinárias e de pouco proveito.

Falar pelos cotovelos – É o mesmo que papagaiar, ser tagarela, loquaz. A frase surgiu das cutucadas com o cotovelo para chamar a atenção do outro quando falamos. Segundo Cascudo, a expressão já era conhecida 150 anos atrás. No sertão do Nordeste, existia a ‘surra de cotovelo’ quando a esposa pedia atenção ao marido distraído no leito conjugal.

Os pés pelas mãos – Confundir-se ou enganar-se. A origem está nos guizos que os mestres de cavalos punham nas patas dos animais para obter pelo som a marcha certa e regular. Segundo Cascudo, “o segredo do cavalo sem tacha [defeito] nem vício está justamente em não meter os pés pelas mãos”.

Locuções Tradicionais no Brasil – Coisas que o Povo Diz,

Luís da Câmara Cascudo, Editora da Universidade de São Paulo e Editora Itatiaia, SP, 1986, 314 págs.;

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br.

Leia também sobre as cartas de Câmara Cascudo e Mário de Andrade.

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