‘O púcaro búlgaro’ satiriza os fantasmas da loucura

O ser humano lida no dia a dia com certezas que parecem conduzir a vida prática e lhe proporcionam a impressão de que tudo está no lugar. É o que muitos chamam de zona de conforto. Quando os problemas surgem, no entanto, é necessário rever conceitos e elaborar uma nova representação para aquilo que antes era dado como certo e que se mostrou mera ilusão.

Essa capacidade de criar e recriar as coisas com a linguagem é a matéria-prima do livro O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho (1916-1998). No jogo simbólico que propõe na obra originalmente lançada em 1964, Carvalho abandona a sensatez e traz para primeiro plano os fantasmas que habitam a mente, com os desejos e as lógicas mais estapafúrdias. O livro é um diário com veia humorística que perde sentido o tempo todo, propondo-se como uma especulação sobre a loucura, que deixa muitos significados refletidos em suas entrelinhas.

“Decidi-me a descobrir o que quero descobrir, e fuçarei até o último dos lixos se preciso. Descobri esta noite que a escuridão, longe de me desviar do caminho, acabará me pondo nele: fuçarei a escuridão”, diz o escritor. Carvalho constrói a história a partir de um púcaro búlgaro, uma espécie de um recipiente com asa como um caneco, visto em um museu na Filadélfia.

Hilário, o narrador, duvida então da existência do púcaro e da Bulgária e arregimenta por meio de anúncio em jornal um grupo de lunáticos para se lançarem a uma expedição que vai certificar ou não a existência de um e de outro. Do alto de seu apartamento no oitavo andar na Gávea, no Rio, o grupo funda o MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos de Búlgaros). A brincadeira coloca o leitor frente ao conceito de território ou de país, que é mera representação, ou melhor, uma mentira com a qual todo o grupo social concorda.

Campos de Carvalho é tido por referência da prosa brasileira, ao lado de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. O escritor produziu outras obras aclamadas pela crítica, como A lua vem da Ásia (1956), Vaca de nariz sutil (1961) e A chuva imóvel (1963).  O púcaro búlgaro teve sua segunda edição em 2008 por conta do sucesso da peça homônima montada pelo diretor Aderbal Freire-Filho, que levou a história para o palco sem fazer adaptações no texto e a define como “cheia de peripécias sem sair do lugar”.

O púcaro búlgaro,

Campos de Carvalho, José Olympio Editora, RJ, 2008, 110 págs.

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