João Antônio encontra poesia no mundo da malandragem

Uma história da malandragem paulistana, que se ambienta em salões de sinuca no início dos anos 60, embala as desventuras de três amigos que saem em busca de partidas em vários bairros da cidade para superar a falta de dinheiro.

O cenário inicial é a Lapa de Baixo, onde ainda hoje estão o mercado municipal e a estação de trem. Por ali passam proletários, gente pobre, humilde e sem instrução, mas honesta. Eles são o alvo dos jogadores, seus “coiós-sem-sorte”, que chegam a perder indenizações de toda uma vida de trabalho nas caçapas viciadas dos malandros.

Esse é o roteiro do conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que dá título ao livro do escritor e jornalista João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), lançado em 1963.  A obra traz outros oito contos, entre eles, Afinação da Arte de Chutar Tampinhas, história famosa que também é referência do autor e que trata dos sonhos e desilusões de um garoto pobre que jogava futebol na Moóca, fumava escondido e gostava de repicar na frigideira em rodas de samba.

O livro recebeu quatro prêmios: dois Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), prêmio Fábio Prado e da Prefeitura de São Paulo. Em 1976, a história foi para as telas do cinema com o título O Jogo da Vida, sob a direção de Maurice Capovilla e com os atores Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Jofre Soares. O roteiro foi escrito pelo próprio João Antônio.

O escritor era de família humilde e trabalhou em funções mal remuneradas antes de lançar seu primeiro livro. João Antônio é considerado um autor de estilo arguto – trata das coisas mais sutis, revelando a engenhosidade e espiritualidade de personagens nas situações de penúria e marginalidade. Além dos malandros, seus personagens são os moradores de rua, pobres e miseráveis que as classes endinheiradas preferem não ver.

Esse estilo se traduz em uma escrita com grande poder de transmitir imagens, o que, aliás, é próprio da experiência literária. Mas no caso de João Antônio esse exercício é feito com o efeito das palavras que ele tira da boca do povo para transformá-las em frases curtas, de impacto certo e fulminante.

Veja como ele descreve o anoitecer:

“Bacanaço deu com a primeira luz. Lá no meio da cara da locomotiva. Num golpe luzes brotaram acima dos trilhos dos bondes. Os luminosos dos bares se acenderam e a fachada do cinema ficou bonita. A Lapa trocava de cor”.

Confira agora a imagem do malandro:

“Para final – Bacanaço era taco melhor, jogador maduro, ladino perigoso da caixeta, do baralho e da sinuca, moreno vistoso e mandão, malandro de mulheres. Camisa de Bacanaço era uma para cada dia. Vida arrumada. De mais a mais, Bacanaço tinha negócio com os mascates, aqueles que vendiam quinquilharias e penduricalhos nas beiradas da Lapa-de-Baixo, e era um considerado dos homens do mercado. Malandro fino, vadio de muita linha, tinha a consideração dos policiais. Andar com Bacanaço, segui-lo, ouvi-lo, servi-lo, fazer parceria, era negócio bom. Era quem primeiro cantava de galo, Bacanaço não olhava na cara dos desconhecidos. Impunha-se-lhes oprimindo, apequenando. Mandava primeiro, uma ruga na sobrancelha, sempre abespinhado. Desses que quando a conversa não interessa vão mandando para a casa do diabo. E se houver reaproximação já batem, já xingam, já correm o pé, dão cabeçada, deixam o sujeito estirado na calçada. Agora, se gostasse, gostava.”

Malandragem na história

A malandragem e seus personagens durante o século 20 são manifestações de expressões socioculturais fundamentais para que se possa conhecer a identidade brasileira, enfim, os objetos do desejo e os fantasmas que percorrem esse modo de ser e ver.

No percurso da história, a imagem do malandro sofreu mutações em seus dois principais territórios – Rio de Janeiro e São Paulo. A malandragem é um fenômeno de um país em seu processo de urbanização, enquanto o cangaço declinava no sertão, no mundo pré-urbano.

Nos anos 20 e 30, Madame Satã despontou na Lapa do Rio quase como uma figura mitológica, temida e desafiadora. Como todo malandro, Satã tinha seu território onde ele próprio era a lei, uma espécie de Estado paralelo. Com Bacanaço e sua trupe não é diferente. Na Lapa de Baixo ele impõe sua razão, tanto quanto fazem hoje os traficantes e o crime organizado em suas áreas demarcadas.

Mas no percurso da história, a figura do malandro foi domesticada pela mídia até cair de uso. Enquanto Madame Satã tinha o policial como eterno inimigo – ele próprio disse ter encarado mais de 3 mil brigas com policiais –, Bacanaço é diferente, a polícia lhe dedica respeito, o que já denota uma mudança da imagem do malandro no tempo. Isso, no entanto, não chega a dizimar o conflito com o poder. No caso da história de Bacanaço, esse conflito é carregado para o plano simbólico do jogo de sinuca. Seu grupo enfrenta na Água Branca o dono de uma roda de jogo chamado inspetor Lima, um policial aposentado, “nem malandro, nem coió” e que diz: “- A maior malandragem, meus filhos, é a honesta”. Sem dúvida, uma afirmação que lembra a Ópera do Malandro, de Chico Buarque:

“…mas o malandro pra valer
não espalha
aposentou a navalha
tem mulher e filho
e tralha e tal
dizem as más línguas
que ele até trabalha
mora lá longe e chacoalha
num trem da central”.

Malagueta, Perus e Bacanaço,

João Antônio Ferreira Filho, ed. Civilização Brasileira, 1975, RJ, 159 págs.

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s