Gilberto Freyre e o mito da democracia racial no Brasil

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será realizada de 4 a 8 de agosto, vai render este ano homenagens ao livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). A obra será debatida na conferência de abertura e em mais três encontros, reunindo seus estudiosos, como o cientista político e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a encara como perene, duradoura.

O aspecto central do livro está em sua contribuição para a investigação da identidade brasileira, afinal, ainda hoje é difícil dizer quem é o brasileiro. A primeira edição foi lançada em 1933. Desde então, mais de 50 edições foram publicadas. A obra é apreciada nos círculos acadêmicos, como objeto de teses e dissertações.

Muitas dessas produções versam sobre seu caráter dualista: de um lado, Freyre revela como pensava e agia o colonizador a partir de 1532, quando efetivamente começou o processo de ocupação do país; de outro, mistifica o desenvolvimento da sociedade, colocando o negro em uma posição de superioridade cultural em relação ao índio naqueles tempos.

Neste trecho, Freyre mostra seu lado mitológico: “As populações de origem negra, na Bahia por exemplo, não têm aquele ar sorumbático dos populares sertanejos do Nordeste, quando de origem principalmente indígena. Na Bahia, tem-se a impressão de que todo dia é dia de festa”.  Por essa linha, o escritor sustenta que o negro foi “o maior auxiliador do branco” na empreitada colonizadora do país, chegando a ver o Brasil como uma democracia racial.

Atualmente, a crítica à obra tende a reconhecer uma interação entre os aspectos críticos e míticos do livro, que são vistos como elementos formadores de uma política da memória para um país que se mostra carente de história. “Tal política visaria fazer um ajuste de contas com o trauma da escravidão”, afirma Alfredo César Melo, professor-assistente de literatura lusófona na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, em artigo sobre o livro. Para Melo, esse movimento reflete a característica da cultura brasileira de equilibrar antagonismos.

O livro vale também pelos registros históricos de hábitos e comportamentos do brasileiro, que revelam a origem de coisas que nos rodeiam hoje. Esse é o caso da tapioca e outras iguarias da culinária brasileira. “Não é só em relação ao beiju (tapioca), mas a tudo quanto é comida indígena, a Amazônia é a área da cultura brasileira mais impregnada de influência cabocla: o que aí se come tem ainda gosto de mato”.

Casa Grande & Senzala,

Gilberto Freyre, Global Editora, 2006, SP, 726 págs.

Leia o artigo do prof. Alfredo César Melo:

http://migre.me/Vyr2



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4 pensamentos sobre “Gilberto Freyre e o mito da democracia racial no Brasil

  1. Eu sinto o paradoxo citado nos dias de hoje: o negro é, ao mesmo tempo, discriminado, mas também, exaltado. Existem muito mais defensores da cultura negra que da cultura indígena. O indígena ficou meio esquecido. O negro é o grande mártir. Mas o indígena é o verdadeiro habitante da terra, ainda não lhe foi feita a devida homenagem.

    • Oi Cristiane, creio que temos uma série de homenagens a fazer para os excluídos, explorados e oprimidos da história do país. O reconhecimento das contribuições culturais desses segmentos, como no caso dos índios, parece essencial para que possamos compreender melhor a nossa identidade.
      abs

  2. Caro Helder, beiju não é tapioca. Ambos vêm da mandioca, mas param aí, na semelhança. Os dicionários, como desconhecem palavras e cultura do povo (porque os definem mal) é que fazem a confusão. De modo precário, pelo sabor, digo que beiju é mais duro, seco, e se come depois de assado. Já tapioca é macia, de grãos mais finos, um pozinho úmido de mandioca, que na sua melhor expressão recebe um recheio de coco ralado.
    Sobre Gilberto Freyre escrevi um verbete para o meu Dicionário Amoroso do Recife. Nele ressalto a escrita criadora, pioneira, e as mistificações. Posso te enviar depois. Abraço.

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