Ameaça do livro eletrônico ao papel é falsa questão

Os mais afoitos pela tecnologia gostariam de trocar o livro tradicional, de papel, pelo leitor eletrônico, o chamado ebook, sistema em que o usuário carrega os arquivos das obras que deseja ler na tela do computador ou em uma telinha específica para esse fim, o eReader.

Esse recurso, no entanto, não chega a ser uma panaceia como gostaria a indústria de tecnologia. Mais do que concorrer com o livro tradicional, o ebook deverá se consolidar como alternativa de suporte eletrônico para textos, podendo encontrar assim suas reais vocações no contexto de cada mercado em que se inserir.

Por exemplo: o Brasil é considerado atualmente um grande consumidor de livros didáticos no mundo. Segundo uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre o desempenho do mercado de livros no país em 2008, os didáticos, frente a outros três segmentos – obras gerais, religiosas e científicas e profissionais – detêm 52% do mercado em termos de exemplares produzidos, um universo de 177,5 milhões de unidades para 340,2 milhões de unidades no total.

Se o ebook tiver alguma participação no segmento de didáticos, ele poderá enriquecer a coleção de títulos dos alunos, visto que sua capacidade de memória é incomparavelmente maior do que a do suporte em papel. Além disso, não seria preciso reciclar livros. A informação seria transmitida na simples operação de copiar arquivos. O impacto ambiental da fabricação de livros também cairia.

De qualquer modo, é falsa a discussão de que o livro de papel vai acabar. As revoluções tecnológicas no campo da comunicação desde a imprensa de Guttenberg mostram que as mídias convivem porque são diferentes suportes e linguagens da informação, conseguindo se apropriar de nichos específicos do tempo do cidadão.

A verdadeira discussão é como ampliar o acesso à cultura do livro, já que o ebook no momento está mais para um brinquedinho de quem pode se dar a esse luxo. E ai não é nem mesmo a questão do preço do livro que está em pauta, mas de como criar motivação para atrair pessoas para a leitura.

Ampliar o acesso ao livro seria sim um ato em defesa da democracia, pelo direito de poder partilhar o conhecimento. Em A questão dos livros – Passado, presente e futuro, o historiador norte-americano Rorbert Darnton, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), trata da suposta morte do livro, que é ensejada pela discussão da tecnologia.

Mas segundo Darnton, o desejo de ampliar o acesso à cultura vem pelo menos desde o Iluminismo, século 18, “na sua fé no poder do conhecimento e no mundo de ideias que ele operou – aquilo que os iluministas costumavam chamar de República das Letras”. Apesar da efervescência intelectual de seus pensadores, como Voltaire e Rousseau, Darnton reconhece que “a República das Letras só era democrática em princípio. Na prática, era dominada pelos ricos e bem-nascidos”.

Essa pequena definição cai como uma luva para os dias atuais. Apesar dos avanços sociais do país nos últimos anos, o hábito de leitura ainda é um privilégio de poucos. E olhe que os números do mercado são positivos. Enquanto a Fipe detecta uma queda do preços dos livros nos últimos anos, uma outra pesquisa, Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-livros, revela que o índice médio de leitura aumentou: de 1,8 livros por ano em 2000 para 3,7 livros por ano em 2007. Isso, no entanto, ainda é pouco para resgatar as deficiências da história.

A questão dos livros – Passado, presente e futuro,

Robert Darnton, tradução de Daniel Pelizzari, Companhia das Letras, SP, 2010, 232 págs.

Leia as pesquisas sobre o mercado de livros no Brasil:

Fipe – Produção e vendas do setor editorial Brasileiro:

http://www.abdl.com.br/UserFiles/FIPE2009.pdf

Instituto Pró-Livros – Retratos da Leitura no Brasil:

http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/dados/anexos/48.pdf

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