Debate sobre ‘ideologia’ é mais atual do que nunca

A partir da queda do muro de Berlim, que em 1989 permitiu a reunificação da Alemanha e demarcou o fim da Guerra Fria, o intelectual conservador norte-americano Yoshihiro Francis Fukuyama – filósofo, economista e um dos ideólogos de Ronald Reagan, que governou os Estados Unidos de 1981 a 1988 – decretou a derrocada das ideologias e publicou um artigo com o título O Fim da História, dando conta de que não haveria mais conflitos sociais no mundo. O capitalismo e a democracia se impunham como realidade sobre outras formas de organização social e política.

Naquele momento, parecia que o pequeno livro de 1980, O que é Ideologia, escrito pela professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chaui perdia sua razão de ser, afinal o período que se iniciava enterrava o conflito das superpotências. Em 1992, Fukuyama publicou um livro com o título O Fim da História e o Último Homem, dando sequência à análise que inspirou, entre outras fontes, o surto capitalista dos anos 90.

O então neoliberalismo vendia a ideia de que os mercados podem se regular, que eles são autônomos e que o Estado deve ter presença mínima na vida do cidadão. Foi sob esses preceitos que surgiu a carta do Consenso de Washington, outro capítulo daquela novela que começou com a suposta finalidade da queda do muro.

O tempo, no entanto, tem mostrado que tudo isso era ideologia, uma ilusão para mais uma vez mascarar os conflitos sociais e o problema da exclusão. “Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia. Por seu intermédio, os homens legitimam as condições sociais de exploração e de dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas”, diz Marilena. O livro da professora da USP sobreviveu, aliás, nunca chegou a ser ameaçado. A instabilidade econômica desde o início da década atual, quando em 2001 estourou a bolha das empresas de internet, pouco a pouco mostrou que a crença nos mercados era balela de correntes políticas conservadoras.

A crise dos subprimes, no fim de 2008, acabou por dilacerar o pretenso neoliberalismo dos 90. Foi somente com o socorro financeiro dos governos, do Estado, portanto, que os bancos e a indústria puderam respirar. Em 2009, o governo dos Estados Unidos adquiriu 60% das ações da GM, por exemplo, entre tantas outras operações ao redor do planeta para salvar o capitalismo.

Tudo isso aconteceu em meio à ideologia dominante, sobretudo dos meios de comunicação que evitam tocar nas verdadeiras causas do problema. Ainda hoje parece que o capitalismo é uma dádiva dos céus, um presente da natureza. Mas, afinal, o que é ideologia hoje, quais seus pormenores?  Pensar sobre isso talvez seja uma forma de clarear as ideias em tempos em que as notícias mais interessantes são sobre os peitos da torcedora que não foi à Copa do Mundo ou sobre a mulher brutalmente assassinada, supostamente a mando do goleiro, porque era uma alpinista social, alguém que em última análise desejava consumir mercadorias luxuosas valendo-se de um relacionamento.

O desejo pela mercadoria continua a ser o pano de fundo das produções da cultura de massa, que o diga o merchandising de novela. No livro, Marilena discute essa questão sob a ótica do filósofo alemão Karl Marx, que desvendou esse fenômeno, o fetiche da mercadoria, a ilusão de que a mercadoria tem vida própria. “Não percebem a mercadoria como uma coisa dotada de valor de uso (utilidade) e de valor de troca (preço)”.

O que é ideologia,

Marilena Chaui, 1980, ed. Brasiliense, SP, 125 págs.

Encontre este livro na Livraria Cultura: http://migre.me/10Tqx

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2 pensamentos sobre “Debate sobre ‘ideologia’ é mais atual do que nunca

  1. Esse post me lembrou que Roland Barthes tem uma visão interessante sobre Ideologia no livro “Mitologias”.
    Na Era da In-formação, acho que as mitologias se produzem e reproduzem cada vez mais, muitas vezes revestidas de ideologias, e nos distanciamos mais e mais da realidade do mundo físico.

    • Oi Simone, tudo bem?! Eu acredito que a mitologia, enquanto necessidade do mito, é algo inerente ao ser humano, ainda que se tente esconder isso com o discurso científico que, muitas vezes, é mero discurso mitológico disfarçado. Abs

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