Clarice Lispector mergulha com o leitor no mundo interior

‘Liberdade’ é um tema que acompanha a história da humanidade e é íntimo dos escritores, que a discutem sob diferentes perspectivas, como as da política, da condição humana, das produções da cultura, da moral, enfim. Mas em comum a todas essas expressões está o fato de que, antes de tudo, a liberdade é um desejo, uma disposição interior do ser humano.

Um mergulho nesse desejo é o que o leitor vai encontrar em Perto do Coração Selvagem, de 1944, o primeiro romance da escritora Clarice Lispector (1920-1977), que nesta semana está sendo homenageada pela 21ª Bienal do Livro de São Paulo, que se realiza até domingo no pavilhão de exposições do Anhembi.

Quando foi lançado, o romance despertou paixão e ódio entre a crítica e o público. Clarice o escreveu aos 19 anos. Para uns, o livro propunha uma alternativa ao regionalismo que predominava na linguagem literária, como nas produções de Érico Veríssimo e Jorge Amado. Para outros, trazia para o discurso literário o plano dos fluxos de consciência, explorando percepções e sensações que se misturam a desejos e medos, algo que alguns críticos chegaram a classificar de “estranho”.

No decurso do texto, Clarice navega da subjetividade para a objetividade e vice-versa, e prefere o tempo psicológico ao cronológico.  Joana, sua protagonista, é uma menina-mulher, cuja mãe morreu em seu nascimento e o pai, alguns anos depois.  A angústia da morte coloca Joana em um caminho existencialista na pergunta sobre sua identidade no cotidiano de criança órfã e como mulher casada. “Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais”, escreve. Essas indagações refletem a própria biografia da escritora, que perdeu a mãe aos nove anos.

A professora Teresa Montero, doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e autora de livros sobre Clarice, em entrevista ao site do Jornal Jovem, define Joana como “uma menina questionadora, inquieta, completamente fascinada pelo mundo das palavras, que ao tornar-se adulta mantém-se nesta mesma trilha. É uma mulher em busca do coração selvagem da vida; ela está disposta a derrubar todos os obstáculos para viver livremente”.

Os pensamentos de Joana, como exercício de sua liberdade, são mais importantes para a história do que o desenrolar dos acontecimentos. O tempo todo Clarice convida o leitor a pensar: “Eternidade não era só o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de não poder contê-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e também era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstrato”.

Polêmico, Perto do Coração Selvagem foi reconhecido também pela crítica internacional e em 1954 teve lançada sua primeira edição em francês, com capa de Henri Matisse. Seu modo de narrar, definido como “discurso indireto livre”, por se apropriar dos pensamentos da personagem, foi reproduzido em todas as obras de Clarice.

PRAZER – Depois da tia determinar sua ida para um internato, Joana procura o professor, com quem desenvolve um diálogo mais franco em relação ao seu “mundo penumbroso”. Ao filosofar sobre a vida humana e considerar que ela se resume à busca do prazer, o professor diz “quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa – daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos”.

Perto do Coração Selvagem,

Clarice Lispector, 1998, editora Rocco, Rio, 202 págs.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Clarice Lispector mergulha com o leitor no mundo interior

    • Cara amiga, obrigado pelo link. Dei uma olhada no site e gostei da citação inicial de Clarice no texto Clarice Lispector: Uma Geografia Fundadora, em que ela fala da importância do “outro” em sua vida. Acho que uma aproximação entre Clarice e Lacan seria uma investigação interessante.

      A Fliporto foi divulgada durante a Flip. Estamos definivamente entrando na era dos festivais literários. Será isso um sintoma do tempo?!

      bj

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s