Obra famosa de Hemingway é carregada de simbolismo

Uma das mais famosas histórias do escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961), ‘O velho e o mar’ é um livro que merece estar na cabeceira de quem quer dar uma chacoalhada nas verdades inabaláveis do dia a dia. O que parece a princípio uma história banal sobre pescadores, pouco a pouco se reveste de um simbolismo que confronta o leitor com seus valores sobre o outro, seu semelhante, e a divindade.

Ernest Hemingway

A narrativa em terceira pessoa conta o ato de bravura de Santiago, um velho pescador que vive em uma pequena vila à beira do oceano em Cuba. Depois de 84 dias sem ter sorte na pesca, o velho se lança sozinho ao mar em sua canoa e enfrenta um grande peixe, um espadarte, constituindo uma relação em que o homem enfrenta o animal e vice-versa.

Quando estreou na revista Life, em 1952, a história vendeu 5,3 milhões de exemplares em dois dias. Depois veio a publicação em livro, que ocupou durante 26 semanas a lista de títulos mais vendidos nos Estados Unidos. Por conta dessa obra, Hemingway conquistou o prêmio Pulitzer em 1953 – ela também contribuiu para que no ano seguinte ele ganhasse o Nobel de literatura.

Na época, a comunidade literária recebeu o texto em meio a elogios e críticas. “Eu acredito que essa é a melhor história que Hemingway escreveu”, disse Cyril Connoly, do jornal londrino Sunday Times. Mais severo, um crítico chamado John Aldridge achou o romance excessivamente pitoresco e cheio de sentimentalismo, classificando-o como uma parábola clássica – um texto com uma mensagem indireta repleta de analogias com o sacrifício de Cristo encerrado na Bíblia.

O fato é que a interação entre o velho, o peixe e o mar cria um terreno fértil para a simbologia sobre a qual Hemingway se negava a falar. Neste trecho, em que o velho retorna do mar, o escritor parece mesmo fazer uma referência bíblica: “Recomeçou a andar e no cimo da rampa caiu no chão e ficou deitado durante alguns momentos com o mastro ainda aos ombros. Tentou levantar-se”.

Neste outro momento, o escritor identifica o velho com o peixe, permitindo ao leitor pensar na hipótese da relação metafórica entre as personagens: “Gostaria de ser aquele peixe, e trocaria de bom grado a minha vontade e a minha inteligência para ter tudo o que ele tem”.

Em entrevista em 1958 à revista ‘The Paris Review’, Hemingway falou sobre as significações de seus textos, chamando a atenção para os conteúdos que o leitor agrega à obra. “Leia tudo que escrevo só pelo prazer da leitura. Qualquer outra coisa que venha a encontrar será a medida daquilo que você trouxe à leitura”, afirmou. O escritor também disse que não considerava trabalho seu desvendar a simbologia do texto. “Pode ter certeza de que existe muito mais no que se escreve do que aquilo que se lê numa primeira leitura e, por ser assim, não é função do escritor explicar o que escreve ou organizar excursões, como um guia turístico, através da região mais difícil de sua obra”.

O velho e o mar,

Ernest Hemingway, editora Bertrand Brasil, 128 págs.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Obra famosa de Hemingway é carregada de simbolismo

  1. Tenho lido muito a respeito da obra “O Velho e o Mar” para fazer um trabalho : simbolismo da obra “O Velho e o Mar”, vc foi quem mais chegou próximo do que tenho a analisar, é inacreditável a falta de conteúdo q há na net, existe muitos resumos da obra e alguns timidamente expressam sutilmente um posicionamento. Vc está de parabéns, pelo menos arriscou-se um pouco mais. Gostaria de saber se vc possui mais artigos a respeito do simbolismo da obra já citada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s