Dilma e Literata retomam debate sobre ‘Grande Sertão: Veredas’

Foto de Rosa publicada na 16ª edição

‘Grande Sertão: Veredas’, a obra máxima do escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), publicada junto com ‘Corpo de Baile’ em 1956, voltou a chamar a atenção do leitor depois que a candidata à presidência Dilma Rousseff declarou à imprensa que o livro é seu título preferido.

“Sempre gostei muito de ler, e desde criança, meu pai nos incentivou a ler, abrindo esse mundo da leitura para nós. Entre as obras que mais me marcaram está a de Guimarães Rosa, sobretudo ‘Grande sertão: veredas’, que acho inigualável”, disse Dilma, em 18 de setembro, ao jornal O Globo.

A obra também estará sob os holofotes do primeiro festival literário de Sete Lagoas (MG), a Literata, de 17 a 20 de novembro no Centro Cultural Nhô-Quin Drummond. O homenageado será o escritor de Cordisburgo, que conquistou o mundo com a literatura e a atividade diplomática. O romance será debatido por estudiosos e especialistas em algumas das mesas-redondas durante o festival.

Quando foi lançado, ‘Grande Sertão: Veredas’ desafiou a crítica literária, que teve dificuldade para compreendê-lo. Isso ocorreu porque Rosa reinventou a ficção, trazendo para o plano do romance o discurso regional do homem do sertão do país. O livro é escrito em tom coloquial, exprimindo a realidade de uma fala que é a própria razão de ser do romance.

A história é narrada por um jagunço, Riobaldo, que faz uma retrospectiva de sua vida em torno da jagunçada e de uma atração inusitada por um parceiro, Diadorim. Mas tanto o enredo quanto o pitoresco têm lugar menor na obra de Rosa, que se vale da experimentação com a linguagem para inserir o leitor em uma realidade mágica, na perspectiva de outro senso, fora do senso comum.

Ao mergulhar no universo de Riobaldo, o leitor vai encontrar histórias dentro de histórias, expressões antigas e neologismos, mas, sobretudo, uma investigação sobre o que é o sertão, o homem e as forças que os governam. Daí o tempo todo Riobaldo especular sobre a existência do diabo. “Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!”, afirma Riobaldo.

Forma e conteúdo

Antes do movimento modernista, a literatura era marcada pela predominância da formalidade na linguagem. O escritor pesquisava e criava os conteúdos da história, mas ao redigir seguia o padrão da língua. Com o modernismo, no entanto, a formalidade caiu por terra e a literatura experimentou uma aproximação entre linguagem e tema.

O escritor piauiense Assis Brasil, autor de estudos sobre escritores modernistas, observa que a produção de Rosa leva ao ponto alto essa tendência do modernismo. Num livro intitulado ‘Guimarães Rosa’ (Organizações Simões Editora, RJ, 1967), ele afirma que a busca de unidade entre forma e conteúdo “nos daria o tom maior de nossa realidade”. Os termos regionais e a expressão da história como oralidade, que são as essências da alquimia de Guimarães Rosa, acabam por transformar a linguagem em recurso de criação tanto quanto o tema tratado.

Grande Sertão: Veredas,

João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, RJ, 1984, 568 págs.

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Um pensamento sobre “Dilma e Literata retomam debate sobre ‘Grande Sertão: Veredas’

  1. É, de fato, o livro máximo da nossa literatura. Fora do senso comum, com linguagem elaborada. Guimarães é um homem “fora de projetos”, para usar sua própria expressão. É uma boa escolha de Dilma, pouco popular e não tão acessível àqueles que pretendem lê-lo. A Folha de São Paulo o resumiu como um livro em que se encontram ‘pactos demoníacos’ o que distorce um pouco a questão. Mas quem conhece sabe que é uma obra superior – independentemente de ser a escolha da candidata.

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