‘A festa do Bode’ é obra essencial de Mario Vargas Llosa

O escritor Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura 2010, disse que não vai mais escrever romances sobre ditaduras. Mas esse tema é essencial para conhecer a sua obra, que se expressa principalmente por histórias de luta contra a opressão política.

Llosa esteve nesta semana em São Paulo e Porto Alegre. Na capital paulista, participou de uma conversa com jornalistas da Folha de S.Paulo e explicou a razão de abandonar o tema: “Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Eles repetem a si mesmos como maníacos. Não tenho vontade de escrever mais sobre ditadores.”

Os tantos vícios e perversões de uma ditadura segundo Llosa podem ser conferidos no romance ‘A festa do Bode’, lançado em 2000. A obra traz a história de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Pai da Pátria, que foi ditador da República Dominicana durante 31 anos, de 1930 até 1961, quando foi assassinado.

Vargas Llosa: denúncia da face perversa das ditaduras

O romance mistura realidade e ficção e leva o leitor com intensidade para os bastidores do dia a dia do ditador e também da conspiração que culminou no assassinato. Outro eixo do romance, situado em 1996, mostra o reencontro de Urania com o seu país, depois de 35 anos vivendo nos Estados Unidos.

Urania é filha do senador Augustin Cabral, um dos mais próximos colaboradores do regime. O reencontro de Urania com suas memórias de infância e adolescência revela a face mais cruel do ditador, que não vê limites para satisfazer seus desejos. A ficção de Llosa denuncia ainda a realidade da conivência com a corrupção e os desmandos daqueles que servem e se servem da ditadura.

No mundo em que o ditador joga seus opositores literalmente aos tubarões, cada ato semeia ódio, humilhação e desejo de vingança. Assim foi com Amadito, jovem oficial militar, a quem o ditador exigiu a renúncia de um noivado, pelo fato da noiva ser irmã de um ativista comunista. Não bastasse isso, Amadito ainda foi submetido a uma prova de lealdade pelo ditador, matando o tal irmão sem saber quem ele era. Foi assim que, ao passar por esse processo degradante, Amadito se engajou entre os conspiradores da morte de Trujillo.

Quando o livro foi lançado, em 2000, o jornalista e crítico literário argentino Tomás Eloy Martínez escreveu que “o que mais assombra em ‘A festa do Bode’ é o enorme trabalho de investigação que sustenta o romance sem que jamais sejam notadas suas costuras”.  A história de Llosa é rica em detalhes históricos e uma obra madura: passa pelos diferentes gêneros que o escritor atuou anteriormente, como o melodrama e o relato policial.

O olhar penetrante do ditador

Confira este trecho do livro:

“O tenente Garcia Guerrero ouvira falar desde menino, em reuniões de família – sobretudo de seu avô, o general Hermógenes García –, na escola e, mais tarde, nos ambientes militares, do olhar de Trujillo. Um olhar a que ninguém podia resistir sem baixar os próprios olhos, intimidado, aniquilado pelas forças irradiadas pelas pupilas perfuradoras, que pareciam ler os pensamentos mais secretos, os desejos e apetites ocultos, que fazia as pessoas se sentirem nuas”.

A festa do Bode,

Mario Vargas Llosa, tradução de Wladir Dupont, editora Mandarim, SP, 2000, 450 págs.

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