Truman Capote enriquece a aventura do jornalismo literário

Capote: retrato das contradições da cultura

As produções de arte muitas vezes são ‘sintomas’ ou ‘reflexos’ das atrocidades do mundo, dos conflitos de interesses, ou mesmo de culturas. Nessa perspectiva, um gênero que surgiu a reboque da Segunda Guerra Mundial foi o ‘jornalismo literário’, ou ‘The new journalism’, como ficou conhecido nos Estados Unidos, cuja obra inaugural é ‘Hiroshima’, de John Hersey, publicada em 1946.

O gênero faz uma fusão entre a narrativa de ficção e a reportagem. O resultado é uma investigação da realidade por intermédio da observação subjetiva do autor e da técnica do narrador na literatura. Suas produções são tidas como literatura não-ficcional, ou jornalismo em profundidade.

Vários jornalistas-escritores militaram no gênero, sendo o norte-americano Gay Talese um dos mais famosos. O fôlego das histórias e a demanda por tempo para apuração dos fatos, no entanto, sucumbiram aos interesses dos meios de comunicação, que precisam girar rapidamente seus conteúdos para manter audiência. Na ‘indústria’ da comunicação, o jornalista é um profissional que tem pouco tempo para apurar suas histórias. O jornalismo literário ficou assim restrito ao mundo dos livros.

Um dos pioneiros nessa arte e que tem agora uma coleção de 42 textos reunidos em ordem cronológica, sob o título ‘Ensaios’, é o escritor e jornalista norte-americano Truman Capote (1924-1984), que ficou famoso com a história de ‘A sangue frio’ – um crime brutal de uma família no estado do Kansas. Capote levou seis anos investigando a história para descrever com precisão o que ocorreu e os personagens envolvidos.

A criação desse livro é retratada no filme ‘Capote’, de 2005, com o ator Philip Seymour Hoffman. Mas a história já havia virado filme antes, em 1967, com o diretor Richard Brooks. No novo livro, um texto desse mesmo ano, sob o título ‘Fantasmas ao sol: a filmagem de A sangue frio’ traz um pouco dos bastidores do filme e reflexões do autor sobre a apuração do livro.

Mas um dos grandes momentos de ‘Ensaios’ é o texto ‘Ouvindo as musas’, de 1956, uma novela não-ficcional sobre a viagem de uma companhia de teatro com 94 membros a Leningrado e Moscou, na então União Soviética, para a apresentação da ópera Porgy and Bess, composta por George Gershwin. A peça trata da vida de uma comunidade de negros em uma cidade fictícia dos Estados Unidos, é polêmica e chegou a ser acusada de racista.

Mas para Capote o que está em questão é a viagem do outro lado da cortina de ferro e o choque cultural que põe a nu os valores e contradições dos seus conterrâneos. Vale também o caráter da narrativa do autor que reconhece no mundo soviético uma riqueza de valores e de manifestações culturais.

Confira este trecho da história que relata o momento em que a companhia chega ao hotel em Leningrado:

“Qualquer que fosse a razão, vários papéis principais e personalidades de destaque que viajavam a convite da companhia consideraram ‘grotesco’, ‘absurdo’ que ajudantes de palco e camareiras, marceneiros e eletricistas fossem conduzidos imediatamente aos apartamentos VIP, enquanto eles, ‘os que realmente importavam’, deviam se contentar com as sobras mais modestas do hotel”.

Ensaios, Truman Capote, tradução de Débora Isidoro, editora LeYa Brasil, São Paulo, 2010, 608 págs.

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