‘Sem Lei nem Rei’ traz retrato realista das raízes do cangaço

A vergonhosa discussão dos nichos sociais que queriam desqualificar o voto dos nordestinos no segundo turno das eleições presidenciais – e que culminou com lamentáveis manifestações de preconceito disseminado na internet – revela uma postura de quem não quer, ou não aceita, olhar para si mesmo, para as raízes que constituem os nossos traços culturais e que são a própria alma do país, não importando se no norte ou no sul.

Maximiano Campos

A alma do brasileiro pulsa, por exemplo, na obra do escritor Maximiano Campos (1941-1998), que tem no romance ‘Sem Lei nem Rei’ o ponto alto de sua criação literária.  Publicado em 1965, esse romance é fundamental como referência da cultura sertaneja para o escritor e poeta Ariano Suassuna, que assina no livro um ensaio anexo sobre a formação da literatura sertaneja.

O livro traz uma epopeia de cavalaria sertaneja que narra a gênese de um cangaceiro, chamado Antônio Braúna, um matuto que forma bando e sai em busca de vingar a morte de seu irmão e de um tapa na cara que levou do coronel da Barra, chefe político no município de Mimoso. Depois de um ataque à fazenda do coronel em que verificou precisar de mais homens, Braúna se associa ao líder da oposição, o coronel Wanderley, cujos desafetos chamam de ‘coronel Tiririca’.

Indignado com o ataque de Braúna, o coronel da Barra pede reforço ao governador, que lhe envia uma volante de cerca de 20 homens na caçamba de um caminhão. Começa assim a mobilização para uma guerra costurada pelos interesses políticos, já que em seis meses haverá eleições. É por esse motivo, aliás, que a guerra se estende pelo sertão adentro depois que o coronel Wanderley suspende a ideia de atacar a fazenda adversária durante a campanha eleitoral.

Sobre o pano de fundo do regionalismo e da epopeia, o livro tem uma dimensão social, é também um retrato de como se fazia política de forma autoritária, arbitrária e violenta durante a história das primeiras décadas da República no país. No caso de Mimoso, não importava o lado que estivesse no poder, sempre ditado pelos coronéis, um título metafórico para os grandes latifundiários que faziam curvar a política aos seus interesses.

Não faltam no livro exemplos dessa truculência ditada pelo poder capitalista vigente, e que enseja a criação de um poder paralelo por meio de proteção dada aos jagunços. Entre um cangaceiro e um coronel, o denominador comum é que justiça é igual ao exercício da vingança, um valor que ainda hoje está presente na cultura do país – basta ver como se processa a violência nos dias de hoje.

Quando política era exercício de violência

Neste trecho, Maximiano Campos sintetiza o que era a vida em Mimoso:

“Assim vai levando a vida o povo de Mimoso. Entre as divergências do coronel da Barra e do coronel Joaquim Nascimento Wanderley. Não podendo aguentar o ônus de política tão violenta, os habitantes vão se filiando a um ou outro coronel, e em torno deles vão gravitando, acompanhando as suas vitórias e as derrotas na política. Assim, nesses 15 anos, tem durado o mando desses dois homens, revezando-se na chefia do município, de acordo com o governo, um de cima e o outro de baixo. E o que está de cima faz exatamente o mesmo, sempre um pouco mais aperfeiçoado no que protestava fazer o seu adversário, quando estava em igual situação”.

Sem Lei Nem Rei,

Maximiano Campos, Ed. Melhoramentos, São Paulo, 1988, 142 págs.

PS (16.dez.2010) – A editora Escrituras está lançando uma nova edição do livro, que anteriormente era publicado pela Melhoramentos. Para quem quiser conhecer a nova edição, basta acessar o site da editora.

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Um pensamento sobre “‘Sem Lei nem Rei’ traz retrato realista das raízes do cangaço

  1. No triste episódio da morte de Eduardo Campos, não se falou em seu pai, muito embora já tenha falecido há muito tempo. Mas, o certo é que só se falou na mãe dele. Nenhuma palavra sobre o pai, mesmo para dizer que já era falecido. Estranho.

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