Rubem Fonseca explora as loucuras do cotidiano em 14 contos

Rubem Fonseca

O sujeito acabara de defecar. Olha para o vaso e começa a refletir sobre a existência de Deus e da relação do homem com seus excrementos. A partir de então, o personagem passa a observar suas produções diariamente, compra uma Polaroid, monta álbuns e desenvolve toda uma simbologia, tornando-se um praticante de ‘copromancia’, a arte de ler o futuro nas fezes.

Assim começa o primeiro conto do livro ‘Secreções, excreções e desatinos’, de Rubem Fonseca, lançado em 2001. A coleção de 14 contos concisos, no estilo irreverente do autor, traz sempre uma história de loucura, de quebra de senso, como a do personagem que suga uma pústula no ombro de sua amante, ou do empresário que se relaciona com uma garota que observa nele uma angústia com a própria caspa.

Para escrever esse livro, Fonseca parece ter buscado inspiração nas manifestações de loucura que permeiam o cotidiano sem que sejam verbalizadas, porque compõem roteiros que não são aceitos socialmente. São como os pensamentos proibidos que muitas vezes temos. Esse é, aliás, um material que atrai muito os escritores: a paixão pelo avesso das coisas, ou por aquilo que está fora do humano, que também se chama de ‘paixão pelo real’.

Essa experiência de tocar o excremento, e com ele a loucura, como Clarice Lispector, que come gosma de barata em ‘A paixão segundo G.H.’, é uma busca para purificar a alma. A psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco escreve em um livro chamado ‘A parte obscura de nós mesmos’ que “se, em nossos dias, o termo ‘abjeção’ remete ao pior da pornografia através das práticas sexuais ligadas à fetichização da urina, das matérias fecais, do vômito ou das secreções corporais, ou ainda a uma corrupção de todas as interdições, ele não é dissociável, na tradição judaico-cristã, de sua outra faceta: a aspiração à santidade”.

De acordo com a psicanalista, as experiências da perversão, ou de ‘pequenas perversões’, como algumas conversas até admitem, representam o acesso a um lugar diferente, fora do padrão, mas que é necessário à manutenção da própria ordem social. Ela também considera que os fetiches sexuais estão na linha da manifestação da liberdade de ser.

Reflexão sobre a falta de registro na memória

Neste trecho do conto ´Copromancia´, Fonseca especula sobre a nossa vocação para esquecer eventos e fatos repugnantes:

“Não obstante minha reação inicial de repugnância, eu observava minhas fezes diariamente. Notei que o formato, a quantidade, a cor e o odor eram variáveis. Certa noite, tentei lembrar as várias formas que minhas fezes adquiriam depois de expelidas, mas não tive sucesso. Levantei, fui ao escritório, mas não consegui fazer desenhos precisos, a estrutura das fezes costuma ser fragmentária e multifaceta. Adquirem seu aspecto quando, devido a contradições rítmicas involuntárias dos músculos dos intestinos, o bolo alimentar passa do intestino delgado para o intestino grosso. Vários outros fatores também influem, como o tipo de alimento ingerido”.

Secreções, excreções e desatinos,

Rubem Fonseca, Companhia das Letras, SP, 2001, 141 págs.

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