Escritor analisa as ‘figuras’ criadas pelo discurso do amor

O ser humano escreve sua história por caminhos muitas vezes ambíguos, tortuosos, conflitantes e contraditórios. Mas é na paixão que as marcas de sua angústia e insanidade tornam-se irrecusáveis – basta um conflito, uma briga de casal, por exemplo, para o discurso do outro emergir como ameaça àquela imagem que instantes antes era verdadeiramente idolatrada.

Barthes resgatou tema esquecido em sua época

Para o escritor francês Roland Barthes (1915-1980), o discurso do sujeito apaixonado é uma articulação de ideias que toma por base ‘figuras’, que ele define como pedaços de frases que se repetem nos pensamentos e que mostram a paixão em ação. É um discurso de alguém que fala do outro sem perceber que fala de si mesmo.

Barthes montou um arranjo dessas figuras do amor no livro ‘Fragmentos de um discurso amoroso’, de 1977. O livro está na relação dos 500 títulos mais vendidos no site Estante Virtual, portal que reúne 1,8 mil sebos do país. Uma das razões de seu sucesso é a identidade com o leitor – muitos se veem espelhados nas situações esmiuçadas no texto.

O escritor contou que decidiu fazer esse livro porque o discurso da paixão é absolutamente solitário, já que não há quem o sustente diante do grupo social. De fato, são poucos os que saem por aí em busca de ouvinte para as próprias agruras amorosas, mas com o livro Barthes também resgatou para as ciências humanas um tema que era relegado ao ostracismo pelos intelectuais de sua época.

Hoje, ‘Fragmentos’ continua importante, principalmente porque pode ser um contraponto para a realidade de relações amorosas cada vez mais despojadas de glamour, de encanto, fenômeno que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisa em um livro chamado ‘Amor líquido’ (Editora Zahar). A resistência a ter laços duradouros e fortes e, ao mesmo tempo, a necessidade de ter alguém demarcam um dos conflitos do homem na sociedade contemporânea.

O livro de Barthes pode assim se tornar um oásis nesse deserto de vínculos do amor de hoje, em que o companheiro é quase tão importante quanto uma mercadoria.  As ‘figuras’ investigadas por Barthes soam como uma contribuição para restituir o imaginário do amor e o sentimento de completude que o outro traz.

Tudo perfeito, exceto por um detalhe

Neste trecho, Barthes discute a figura de ‘alteração’ da imagem do ser amado, quando o amante percebe nela algo estranho:

“Rusbrock [personagem de Dostoievski] está enterrado há cinco anos; é desenterrado; seu corpo está intacto e puro (pudera! Senão não haveria história); mas: ‘havia apenas um pontinho no nariz que tinha um leve traço de decomposição’. Sobre a figura perfeita e como embalsamada do outro (que tanto me fascina), percebo de repente um ponto de decomposição. É um ponto mínimo: um gesto, uma palavra, um objeto, uma roupa, alguma coisa insólita que surge (que aponta) de uma região de que eu nunca havia suspeitado antes, e devolve bruscamente o objeto amado a um mundo medíocre”.

Fragmentos de um discurso amoroso,

Roland Barthes, tradução de Hortênsia dos Santos, Editora Francisco Alves, RJ, 1977, 200 págs.

Consulte o livro no site Estante Virtual.

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