Historiador investiga vida de camponês julgado pela Inquisição

Ginzburg: olhar pelo ‘microscópio’ da história

A expressão ‘morrer pela boca’, que se refere à pessoa que fala e fala até se comprometer de forma irreversível, tem um exemplo literal no livro ‘O queijo e os vermes’, de 1976, do historiador italiano Garlo Ginzburg, que esteve no início do mês em visita ao país.

O livro traz a história de Domenico Scandella, também conhecido por Menocchio, um moleiro [operador de moinho] que vivia em uma pequena aldeia chamada Montereale, na região de Friuli, norte da Itália, durante o século 16.

Menocchio sofreu dois processos da Santa Inquisição por criar teorias “heréticas” sobre Deus e a religião, compondo um sistema complexo que Ginzburg chama de “eclesiologia” – uma doutrina independente da tradição cristã.

Já no início do primeiro processo, o moleiro revela sua compulsão pela fala, declarando que não se importaria de morrer se pudesse contar sobre suas teorias para autoridades como o papa ou um rei. Mas isso acaba acontecendo na prática diante dos juízes da Santa Inquisição.

Os depoimentos de Menocchio foram extensamente documentados na época, e Ginzburg os encontrou por acaso, quando fazia uma pesquisa sobre curandeirismo e bruxaria na Idade Média.

O livro é, portanto, uma análise desses documentos e um exemplo do que atualmente é conhecido por ‘micro-história’, tipo de estudo da história que se caracteriza por uma espécie de olhar em microscópio, o que Ginzburg faz ao contar a trajetória de Menocchio.

O conjunto de teorias que o moleiro confessa à Inquisição tem por base a ideia de que Deus está nos elementos da natureza e que o mundo se organizou a partir do caos, ao modo da massa do queijo, que exposta ao tempo cria vermes – na analogia de Menocchio, os vermes do universo seriam os anjos.

A religião de Menocchio não tem hierarquia, e é também uma voz de libertação dos camponeses, contaminada pela tradição pagã. Ginzburg conta a história de Menocchio, no entanto, sem imprimir a ela rótulos rápidos, como a tendência a reconhecê-la como expressão do Renascimento.

Ao interpretar a vida do moleiro, o historiador levanta hipóteses e vai rebatendo cada uma delas, comparando o discurso com as obras que ele declara ter lido, como o Alcorão e o Decameron, este último do escritor Boccaccio, em 1350. Nesse percurso, Ginzburg descobre que o moleiro imprime sua imaginação às obras lidas, sobrepondo ao texto elementos da tradição oral camponesa e distorcendo os dados em função de seu desejo.

O mundo sob a ótica da tradição pagã

Neste trecho, Ginzburg sintetiza a perspectiva das teorias de seu personagem:

“Com seu silêncio, Menocchio pretendia frisar para os juízes, até o último instante, que seus pensamentos haviam surgido no isolamento, em contato exclusivo com os livros. Contudo, nós já vimos que ele projetava sobre a página impressa elementos tirados da tradição oral. É essa tradição, profundamente radicada nos campos europeus, que explica a persistência tenaz de uma religião camponesa, intolerante quanto aos dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, fundamentalmente pré-cristã.”

O queijo e os vermes, o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição,

Carlo Ginzburg, tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras, SP, 2009, 253 págs.

Foto: Divulgação

 

 

PS (28/12/2010): Entre os livros que influenciaram Menocchio, o Decameron foi recriado no cinema pelo polêmico diretor e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, em 1970. Os contos que compõem essa obra foram tirados por Boccaccio da tradição oral, como o do trecho abaixo do filme, que dá um exemplo do que é uma  história pagã:

 

 

 

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2 pensamentos sobre “Historiador investiga vida de camponês julgado pela Inquisição

  1. Helder!
    Parabéns pelo texto! Sou professor de História, devo confessar que o jornal Metrô News melhorou muuuuuuito depois que colunistas como você tiveram maior espaço, eu lembro de uma época que esse jornal era muuuito ruim, com muitas publicidades eróticas e tals, devo elogiar o atrevimento de citar Carlo Ginzburg para um jornal que atinge um grande público. Parabéns! Meus elogios pela qualidade de texto e temática.

    Douglas, de Diadema – SP

  2. Caro professor,
    Muito obrigado pelo apoio e reconhecimento.De fato, o Ginzburg é do círculo da Academia, mas o livro ‘O queijo e os vermes’ tem uma qualidade literária que o torna interessante para todo o leitor que quiser um livro transformador. Acredito que trazer a discussão do livro para a página de um jornal é uma tentativa de democratizar o conhecimento.

    Somos uma equipe nova no Metrô News, e estamos em busca de um jornal que tenha informação, conhecimento e postura crítica. Sua apreciação é mais do que bem-vinda para nós.
    abs,
    Helder

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