Romance de Rachel de Queiroz trata de amor e da temática urbana

Rachel: questões psicológicas em foco na literatura

A escritora cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) é conhecida por seus romances regionalistas e de fundo social, como ‘O Quinze’ e ‘João Miguel’, que exploram a temática da seca e da miséria no Nordeste. Mas há outro momento da escritora em que ela aponta sua ficção para a abordagem psicológica e de reflexão sobre o meio urbano.

Esses dois elementos são o pano de fundo do livro ‘As Três Marias’, de 1939, o quarto e último romance da escritora, no qual ela pensa em questões como a liberdade e a condição da mulher, e sobre os significados do amor.

Esse é o último romance de Rachel, que depois passou às crônicas e aos textos para teatro, dando uma virada em sua visão política e assumindo uma postura identificada com as ideias do sociólogo Gilberto Freyre. Este ano marca o centenário de Rachel de Queiroz, que nasceu em 17 de novembro de 1910.

‘As Três Marias’ traz a história de três garotas – Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória – que se conhecem em um colégio interno em Fortaleza, tornam-se inseparáveis e cúmplices, formando uma célula alijada do convívio social dentro da escola, já que duas delas são órfãs e carregam a marca do preconceito das outras.

Dentro dos muros do colégio, as três meninas sonham com o mundo de liberdade lá fora, com os homens, e se abismam diante do meio urbano, nas raras oportunidades em que saem do colégio. São anos de puberdade e as meninas reclusas são tão estranhas à cidade quanto o matuto que pisa em solo urbano pela primeira vez.

O livro é capaz de emocionar o leitor com a retrospectiva de Maria Augusta, a narradora da história, sobre seus tenros anos de infância, quando sua mãe ainda era viva – é como se a escritora falasse de uma morte que se refere à história de todos nós.

Nessa busca interior, as significações do passado trazem à tona possibilidades para representar o amor, um tema denso no livro de Rachel. Suas personagens trilham a procura do amor, gastam suas vidas nesse percurso, no desejo de possuí-lo, dominá-lo – só que numa perspectiva muito diferente dos dias atuais, em que não há colégio interno e sim uma exposição permanente da intimidade. Falta glamour no amor de hoje em dia, e talvez o livro de Rachel possa ajudar nesse resgate.

A cidade como um universo proibido

Neste trecho, Maria Augusta se deslumbra com a visão da cidade, do alto da torre de uma capela no colégio:

“A cidade, assim de repente, vista de uma vez e surpreendida de brusco, deu-me um choque no coração, comoveu-me tanto que as mãos me começaram a tremer e meus olhos se encheram de água. Estava ali o mundo, o povo, a vida de fora, tudo o que era interdito à minha vida de reclusa. Sentia medo e alegria juntos numa emoção violenta, como quem rouba e se apossa de qualquer coisa sonhada e proibida.”

As Três Marias,

Rachel de Queiroz, Abril Cultural, 1982, SP, 200 págs.

Onde Encontrar – Estante Virtual: www.estantevirtual.com.br.

Foto: Divulgação / TV Senado

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