Contos fantásticos do século 19

As fronteiras entre a literatura e as ciências que estudam a mente humana, como a psicologia e a psicanálise, são frágeis e difíceis de definir. Isso acontece por várias razões, mas uma delas é que essas áreas do conhecimento têm em comum seu objeto de estudo, que é a expressão do ser humano, principalmente de sua subjetividade, ditada pelos pensamentos mais proibidos e por outras manifestações que escapam da racionalidade da consciência e do padrão social de comportamento.

Calvino: histórias sobre os fantasmas do mundo interior

Assim, tanto no discurso da literatura quanto no da psicanálise encontramos uma disposição para tocar a natureza desumana do homem e investigar sua alma escondida. Essa ideia, por exemplo, moveu os escritores do século 19 a criarem as histórias fantásticas do movimento romântico, nas quais percepção e imaginação se fundem, permitindo vislumbrar fatos sobrenaturais que estão na realidade interior de cada um, como os fantasmas alimentados pelo medo.

Um panorama dessas histórias pode ser encontrado no livro ‘Contos fantásticos do século 19 – O fantástico visionário e o visionário cotidiano’, organizado pelo escritor Ítalo Calvino (1923-1985), que traz histórias de 26 escritores do período, entre eles, Honoré de Balzac, E.T.A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Théophile Gautier.

Além dos contos, o livro traz uma interessante introdução de Calvino, na qual ele aborda o conceito de conto fantástico. Cada história também apresenta uma nota introdutória do organizador sobre sua importância no contexto do Romantismo. Entre todos os contos, Calvino considera ‘O Homem de Areia’, de Hoffmann, o mais importante, que influenciou os demais escritores. “A descoberta do inconsciente ocorre precisamente aqui, na literatura romântica fantástica, quase cem anos antes que lhe seja dada uma definição teórica”, diz Calvino, referindo-se ao conceito de inconsciente, criado por Sigmund Freud na psicanálise, na virada para o século 20.

‘O Homem de Areia’ retrata as visões de Natanael, seu personagem central, que identifica no mundo real os elementos de sua imaginação, personificando o Homem de Areia em um advogado chamado Coppelius, que frequentava a casa de seus pais. O Homem de Areia é um personagem-mito da cultura europeia no século 19, que habitava histórias orais infantis e que foi uma matriz para outros personagens que assustavam as crianças. Os pais diziam que o tal homem arrancava os olhos de quem se recusasse a ir para a cama.

Imagens de terror invadem a mente

Neste trecho do conto ‘O Homem de Areia’ não há diferença entre o que é sonho e o que é realidade:

“Que venham os olhos, que venham os olhos!”, trovejou Coppelius com voz sepulcral. Não pude senão deixar escapar um grito de pavor e, saindo do esconderijo, caí no chão. Ele logo me agarrou. “Bestinha! Bestinha!”, rosnou, rilhando os dentes. E, erguendo-me, aproximou-me tanto do fogareiro que a chama começou a me chamuscar o cabelo: “Agora, sim, nós temos olhos, olhos, um belo par de olhos de menino”, sussurrou, e, pondo as mãos no fogo, pegou um punhado de brasas para jogá-lo em meus olhos.

 

Contos fantásticos do século 19 – O fantástico visionário e o visionário cotidiano,

Organização de Ítalo Calvino, Companhia das Letras, 2004, SP, 520 págs.

Foto: Jerry Bauer/Divulgação

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