Mosaico de Ruffato revela um dia da vida cruel em São Paulo

Ruffato: narrativa realista e fragmentada, com personagens anônimos

A vida na cidade de São Paulo, imersa no cotidiano de trabalho, no vai-e-vem dos ônibus e do metrô, passa quase sem registro na história. Dia após dia, são poucos os significados e fatos que riscam a experiência do sujeito, tirando-o da permanente dedicação à urgência de suas tarefas.

Essa incapacidade de perceber a dimensão da vida na cidade e de se descolar da realidade premente é a matéria-prima do romance ‘eles eram muitos cavalos’, obra consagrada do escritor Luiz Ruffato, publicada originalmente em 2001. O título é inspirado em um poema de Cecília Meireles, que faz referência à falta de conhecimento sobre a origem de cada um no seio da multidão.

Ruffato compôs o que é considerado um romance fragmentário – uma reunião de muitas histórias e personagens da cidade, marcados pela banalidade, pela falta de sentido ou pelos sentimentos mais primitivos, como o egoísmo. Como se fosse um mosaico ou uma colcha de retalhos, o livro registra um único dia, uma terça-feira, 9 de maio de 2000, uma jornada em meio ao outono, regida pelo signo de Touro e protegida por Santa Catarina de Bolonha.

Sempre consciente da importância da forma no texto, e de sua força expressiva, Ruffato monta um quadro realista, com falas coloquiais, em que testemunha a multiplicidade dos personagens na cidade. Prostitutas, favelados, moradores de rua, professores, vendedores, crentes, bacanas da classe média, todos os corpos anônimos estão representados nas linhas do escritor, que os vê no ato intempestivo, na ação impensada e cruel, escrevendo com a mesma urgência com que vencemos um dia de trabalho.

Assim é, por exemplo, com a história da garota de São Miguel Paulista, vendedora de uma loja de roupas, assaltada enquanto devora um cachorro quente e pensa em fazer regime. Ou com o cão cujo dono, um morador de rua, é vítima de mais uma chacina na cidade, ou ainda com o médico que atende em um plantão noturno um assaltante baleado que, tempos antes, invadiu sua casa e ameaçou sua família.

Revolta no espaço público

Neste texto, intitulado ‘Natureza morta’, Ruffato traz o problema da violação do espaço das escolas públicas:

“No corredor, onde desaguavam as três salas-de-aula, gizes esmigalhados, rastros de cola colorida, massinhas-de-modelar esmagadas, folhas de papel-sulfite estragadas, uma lousa no chão vomitada, trabalhinhos rasgados, pincéis embebidos em fezes que riscaram abstrações nas paredes brancas, pichações ininteligíveis, uma garrafa de coca-cola cheia de mijo, um cachimbo improvisado de crack – a capa de uma caneta bic espetada lateralmente num frasco de Yakult. Ao fundo, a fechadura arrombada, cacos do vidro do basculhante, do barro do filtro d’água, marcas de chutes nas laterais do fogão, panelas e talheres amassados.”

eles eram muitos cavalos,

Luiz Ruffato, editora Best Bolso, RJ, 154 págs.

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