Inspirado em notícias, Dostoiévski compôs duas de suas novelas

Dostoiévski é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos

Uma das tendências entre os escritores é expressar em suas obras histórias que tenham um pé na realidade e outro na ficção. Uma coleção de notícias ou documentos históricos podem se transformar em matéria-prima que, com a imaginação e percepção crítica do escritor, ganha a forma de romances, contos, novelas, enfim, de produtos culturais.

Essa técnica de misturar realidade e ficção – que na verdade não é uma ‘técnica’, mas uma ‘filosofia de composição’ –, foi um recurso com o qual o grande escritor russo Fiódor Dostoiévski compôs duas pequenas obras-primas, reunidas no livro ‘Duas narrativas fantásticas – A dócil e O sonho de um homem ridículo’, publicadas originalmente em 1876 e 1877 na revista mensal ‘Diário de um escritor’, que Dostoiévski editou em seus últimos cinco anos de vida.

Nessa época, os jornais de São Petersburgo traziam notícias de suicídios, uma verdadeira onda deles varria a cidade. Dostoiévski buscou inspiração nesses casos e compôs duas novelas com suas verves de jornalista e escritor, mostrando, mais do que um sintoma de sua época, o ser humano em momentos de angústia, oscilando entre a melancolia e o êxtase.

‘A dócil’ traz a história, um depoimento, de um homem maduro, dono de uma caixa de penhor, cuja mulher, uma jovem de 16 anos, acabara de se suicidar. A narrativa se desenrola enquanto o corpo jaz sobre uma mesa na sala. É um monólogo, mas apenas aparentemente. Na escrita de Dostoiévski, são muitas as vozes que falam na consciência desse indivíduo, que se mostra doentio e contraditório, e que com seu silêncio aniquila a esposa, destratando-a por conta de uma suposta traição.

Já o outro texto retrata a situação de um homem prestes a cometer suicídio e que tem um sonho na noite em que havia decidido consumar o ato. Dormindo na cadeira, com o revólver na mesa ao seu lado, o personagem sonha com a própria morte e encontra outro mundo, que identifica como um paraíso, no qual as pessoas vivem em harmonia. O narrador, no entanto, perverte esse novo mundo e isso permite um final surpreendente, que leva o leitor a uma interessante reflexão sobre as relações humanas.

O desejo como combustível dos sonhos

Neste trecho de ‘O sonho de um homes ridículo’, Dostoiévski faz uma investigação sobre o papel dos sonhos e seus ‘mecanismos’:

“Os sonhos, como se sabe, são uma coisa extraordinariamente estranha: um se apresenta com assombrosa nitidez, com minucioso acabamento de ourivesaria nos pormenores, e em outro, como que sem se dar conta de nada, você salta, por exemplo, por cima do espaço e do tempo. Os sonhos, ao que parece, move-os não a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o coração, e no entanto que coisas ardilosas produzia às vezes a minha razão em sonho!”

Duas narrativas fantásticas – A dócil e O sonho de um homem ridículo,

Fiódor Dostoiévski, tradução de Vadim Nikitin, Editora 34, SP, 2003, 127 págs.

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