Galera explora as afetações da alma na figura do cão abandonado

O ator Júlio Andrade é o protagonista do filme ‘Cão sem dono’

Falar sobre ‘felicidade’, em uma conversa qualquer, pode render algumas frases banais que no máximo vão fazer uma imagem para o outro. “Quero juntar dinheiro para viajar”, dizia, por exemplo, a jovem modelo Marcela, personagem do primeiro livro de Daniel Galera, ‘Até o dia em que o cão morreu’, lançado em 2003 e escrito pelo autor aos 23 anos.

Uma reflexão sobre a tal felicidade, no entanto, leva sujeito a pensamentos que nem sempre são socialmente aceitos e proporciona um conhecimento de si mesmo, da própria identidade, que permite rever valores. Essa é uma das possibilidades de leitura da novela de Galera, que não só teve uma boa recepção da crítica e do público, como também foi levada às telas do cinema em 2007, com o título ‘Cão sem dono’ e direção de Beto Brant – conhecido pelo filme ‘O invasor’, de 2001.

Na história de Galera, um jovem recém-formado em Letras, morando em um apartamento vazio no último andar de um prédio em Porto Alegre, revela-se exaurido pela expectativa de emprego, família e toda a rede de relações que nos colocam em uma zona de conforto, livre de questionamentos. Seu romance de encontros avulsos com a modelo Marcela torna-se assim uma polarização entre duas perspectivas de vida que não se equacionam.

Marcela entra na vida do jovem ao mesmo tempo em que ele adota um cão de rua, personagem que assume na história o lugar de uma metáfora do tempo, ritmo e intuição que deixamos de lado para cumprir os desígnios do cotidiano.

Com um texto conciso e franco, Galera procura registrar o espírito da geração dos anos 2000 em suas páginas. E não deixa também de colocar a busca de identidade de seu narrador como uma cegueira diante da modelo, cuja realidade é ignorada por ele.

Corpo como fetiche da mercadoria

Neste trecho, Galera critica a relação entre corpo e mercadoria, vendo Marcela em um anúncio de uma companhia telefônica no jornal:

“Os modelos estavam posicionados lado a lado de modo a substituir simbolicamente os algarismos de uma cifra em dinheiro, antecedidos à esquerda por um grande R maiúsculo e de um cifrão, e separados por uma grande vírgula sobre a areia. A Marcela estava do lado esquerdo da vírgula, usando um biquíni verde, cabelos esvoaçantes, maquiada, saudável, feliz, enroscada num sujeito que segurava uma prancha debaixo do braço. A mensagem por trás daquilo seria algo como ‘converta suas amizades em dinheiro’. Era sem dúvida um dos anúncios mais retardados que eu já tinha visto”.

Até o dia em que o cão morreu,

Daniel Galera, Companhia das Letras, SP, 2007, 99 págs.

Fotos: Divulgação

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