Com a pena de Lima Barreto, conversa de boteco ganha peso literário

Lima Barreto foi crítico sagaz da sociedade carioca

Quem acha que conversa de bar não pode ser literatura está redondamente enganado. Um dos contos clássicos da literatura brasileira – ‘O homem que sabia javanês’, de Lima Barreto (1881-1922) – é justamente um conversa em uma confeitaria, no início do século 20 no Rio de Janeiro, que se desenrola a base de cerveja.

É claro que há infinitos exemplos de conversa de boteco nas letras, mas esse conto é tributário da filosofia da malandragem nas artes. Com ele, o escritor e jornalista, que era crítico sagaz da sociedade carioca, esgrima com seu talento no gênero ‘picaresco’: histórias de malandragem, cujas raízes culturais remontam ao Renascimento e que no Brasil criaram um rico caldo de cultura.

Em um texto chamado ‘Dialética da Malandragem’, o crítico Antonio Candido observa que a história picaresca, em geral, é contada em primeira pessoa para que a realidade seja observada do ponto de vista do malandro-narrador. Outro aspecto é que esse personagem tem origem humilde e segue a vida ao sabor dos fatos, aprendendo com eles, mas sem se amarrar a conteúdos psicológicos.

No conto de Lima Barreto, o narrador inventa que sabe a língua malaio-polinésia para se passar por professor de um barão rico e pão duro que tem um livro em javanês, herança de seu avô, e quer cumprir um juramento de família, aprendendo o seu conteúdo. A investida do falso professor ganha assim o contorno de uma mentira em defesa da sobrevivência, como tantas vezes acontece na vida cotidiana.

Escritores recriam o malandro

O leitor encontrará inúmeras edições desse conto, antigas e recentes. Mas uma delas chama a atenção e só pode ser adquirida em sebos ou sob encomenda. Trata-se da edição da Editora Atual, que faz parte da coleção ‘Outras Palavras’. O livro traz contos de outros escritores, feitos a partir de ‘O homem que sabia javanês’. Esse exercício mostra quantas boas histórias podem ser feitas a partir de uma mesma ideia.

Os companheiros de Lima Barreto são Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio. Todas são histórias primorosas, e uma delas é hilária. O conto do mineiro Antonio Barreto é uma conversa de amigos no bar que explora a significação das palavras – como a diferença entre ‘conde’ e ‘visconde’, por exemplo – evidenciando os momentos de celebração, em que as palavras são puro artifício de prazer.

O homem que sabia javanês,

Lima Barreto, Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio, Editora Atual, Coleção Outras Palavras, SP, 1995, 76 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.

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