Oscar Wilde desnuda o lado sórdido do mundo das celebridades

Oscar Wilde era considerado um dândi em sua época

O mundo das celebridades tem um lado sórdido que quase sempre fica escondido sob as notícias e imagens da TV. Mas essa outra face da fama não passaria incólume sobre o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), caso estivesse vivo. Ao retomar nesta semana seu único romance e obra fundamental – ‘O retrato de Dorian Gray’, originalmente lançado em 1891 – fiquei pensando que suas observações sobre a nobreza do fim do século 19 na Inglaterra cabem como uma luva para os dias atuais.

Na história, o escritor faz um elogio da beleza, dos prazeres imediatos, dos impulsos gozosos e do ‘dandismo’ – postura de quem coloca o valor estético acima de tudo, vivendo de maneira superficial; o próprio Wilde era considerado um ‘dândi’. Essa elevação do valor estético, no entanto, funciona como uma máscara que pouco a pouco vai se despedaçando, sucumbindo à força dos desejos proibidos e selvagens que o culto à vaidade libera.

A crítica de Wilde à sociedade consiste assim em revelar uma inversão de valores dos lordes ingleses, fenômeno que em essência é o mesmo do mundo das celebridades. Trata-se da postura de tratar as trivialidades do dia-a-dia, ou as coisas banais, com seriedade, e as coisas sérias, por sua vez, como triviais. “Oscar Wilde fazia o elogio da superficialidade para penetrar mais fundo nas mentalidades e no sentido de sua época”, afirma o professor Paulo Roberto Pires, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina a introdução de uma edição com as principais obras do autor, lançada nos 100 anos de sua morte, em 2000.

A ambiguidade, a contradição e o caráter duplo da personalidade também percorrem a narrativa de Wilde. A história se desenvolve em torno de três personagens – Lord Henry, Dorian Gray e o pintor Basil Hallward – que interagem em meio a desejos homossexuais não declarados, mas que sempre vêm à tona. Gray é dono de uma beleza fora do comum e modelo de um quadro de Basil, que constrói uma imagem tão bela que se apaixona pelo jovem.

Estabelece-se assim uma relação triangular em que Gray é ao mesmo tempo amado pelo pintor e amante de Lord Henry, um dândi declarado que domina a arte da retórica e exerce grande influência sobre o jovem, motivando sua devoção à beleza e instando-o a buscar a eterna juventude. Esse desejo de jovialidade a qualquer custo abre a perspectiva para as realizações trágicas da história, a ponto de o romance ser considerado também um trabalho de ficção gótica de terror.

Veja também o trailer do filme homônimo, de Oliver Parker, que estreará em breve no Brasil:

 

O retrato de Dorian Gray,

Oscar Wilde, tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn, editora L&PM, coleção L&PM Pocket, Porto Alegre, 2001, 240 págs., R$ 16,50.

Fotos: Divulgação

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