A procura por Dulce Veiga e as canções que dão sentido à vida

A falta de sentido para a existência e a busca por um conhecimento que preencha esse vazio formam um núcleo que perpassa a história da literatura. O tema, no entanto, não envelhece. Por uma razão simples: a cultura, a vida social, o ser humano, enfim, estão inseridos em uma dinâmica impulsionada pelo desejo, algo que se transforma o tempo todo, como as águas de um rio, e que encontra e perde seus objetos de prazer sem explicações convincentes.

Essa busca de identidade é um fio condutor que se revela a cada página do ótimo livro de Caio Fernando Abreu, ‘Onde Andará Dulce Veiga? – Um romance B’, originalmente publicado em 1990. O enredo é construído a partir de um jornalista de 40 anos, morando em São Paulo, que começa a trabalhar como repórter da seção de variedades de um jornal de segunda linha.

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O repórter, que é também o narrador, passa então a elaborar uma matéria sobre a banda de rock ‘Márcia Felácio e as Vaginas Dentadas’ e descobre que a vocalista é filha de Dulce Veiga, uma cantora que fazia sucesso nos anos 60 e que sumiu sem deixar rastros no dia de estreia de seu grande show. O retorno da imagem de Dulce reacende as lembranças do jornalista, que a havia entrevistado no passado.

Começa assim a procura por Dulce Veiga numa trajetória em que realidade e ilusão estão sempre se confundindo, sem que o jornalista saiba distinguir se sua busca é interior ou exterior. Em cartas a amigos, escritas na época da conclusão do livro, Caio definiu seu narrador como um ego que não tem consciência de si, “cercado de alteregos por todos os lados”.

Os personagens tornam-se assim projeções do narrador, evidenciando que Dulce ocupa o lugar metafórico das coisas que ficam esquecidas pelo meio do caminho. Caio escreveu a história pensando que ela seria convertida para o cinema, e a dedicou ao diretor Guilherme de Almeida Prado, que lançou o filme homônimo em 2007, com Maitê Proença no papel de Dulce. Na época, o filme foi elogiado pela crítica por seu caráter experimentalista.

O livro é um dos dois romances de Caio – o outro é ‘Limite Branco’ – e uma obra madura de sua carreira, criada ao longo de 13 anos. Caio consolida o que podemos chamar de literatura ‘pop’, fazendo referências ao cinema, à literatura e à música. Mas isso não é mero recurso de estilo, mas um modo de ver as realidades escondidas da cultura e do ser humano, feitas de lixos simbólicos, ou fragmentos de memórias das coisas do cotidiano.

Na procura de Dulce, o leitor vai descobrir a magia da música. “Dulce Veiga é um livro todo construído no sentido do encontro com o ato de CANTAR – a música para construir sentido para a existência”, escreveu o autor.

Onde Andará Dulce Veiga? – Um romance B,

Caio Fernando Abreu, editora Agir, RJ, 2007, 215 págs.

Fotos: Divulgação

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Um pensamento sobre “A procura por Dulce Veiga e as canções que dão sentido à vida

  1. Esse romance, “Onde Andará Duce Veiga” de Caio Fernado Abreu, é um ìcone que representa a conquista do cinema moderno através da obra escrita, pois incorpora a representação e inclui o autor no centro da cena.

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