As guerras que se luta sozinho, no imaginário de Moacyr Scliar

Scliar faleceu no último dia 27: legado de uma obra imortal

Com a notícia da morte de Moacyr Scliar, no domingo, 27 de fevereiro, resgatei da minha biblioteca o romance ‘O exército de um homem só’, publicado em 1973. É uma das grandes obras da literatura naquele período, talvez a principal entre os mais de 70 livros escritos por Scliar, que nasceu no Bom Fim, bairro da comunidade judaica em Porto Alegre (RS).

O livro conta a saga de Mayer Guinzburg, judeu que emigrou da Rússia para o Brasil em 1916 e que por toda a vida persegue o sonho de construir uma sociedade que espelhe os ideais socialistas. Essa sociedade se chamaria Nova Birobidjan, em referência a uma comunidade na Rússia, e Guinzburg fica conhecido entre seus pares como Capitão Birobidjan.

Scliar compõe um personagem que encerra uma contradição em si, afinal, ser judeu e socialista é quase uma impossibilidade. A oposição imaginada por Scliar, no entanto, coloca Guinzburg fora do senso comum de seu grupo social. Quando jovem, Guinzburg adotava o bordão socialista ‘o que é meu é teu; e o que é teu é meu’, algo que é rejeitado por seu pai: “…isto, segundo a Mishná [livro sagrado do judaísmo], são as palavras do excêntrico, do estranho entre os homens. Acho que vais sofrer muito, filho”.

Ao mergulhar no livro, o leitor percebe que há um fosso entre o que se diz e o que se faz, como se as palavras fossem um véu para encobrir a realidade do ato. É assim que o protagonista de Scliar torna-se um burguês capitalista, dono de uma construtora, enquanto sonha com o socialismo. Mas como não há limite entre sonho e loucura, afinal tudo é expressão do desejo, o projeto de Nova Biribidjan é alternadamente a razão da glória e decadência de Mayer Guinzburg.

A obra de Scliar é considerada como de realismo fantástico – quando a realidade da imaginação se sobrepõe à realidade objetiva, imediata, compondo uma visão de mundo em que não se distingue o interior do exterior. Dessa forma, cada personagem do livro é antes alterego de Guinzburg. Ele chama, por exemplo, de Rosa de Luxemburgo, filósofa e economista marxista e também de origem judaica, uma jovem moradora de rua que habita com ele o sítio onde pretendia instalar a nova sociedade.

O livro é repleto de referências literárias, mas a mais importante delas é a que Scliar usa nas entrelinhas para construir a narrativa, inspirando-se em Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), obra fundadora do romance moderno. Como anuncia o título, a luta de Guinzburg tem assim um caráter quixotesco: “Há muitas guerras, companheiros, algumas a gente luta sozinho”, dizia.

O exército de um homem só,

Moacyr Scliar, editora L&PM, coleção de bolso, Porto Alegre, 1997, 178 págs., R$ 14,50.

Fotos: Divulgação

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