Machado de Assis duvida dos limites entre razão e loucura

Machado de Assis: crítica à sociedade no fim do século 19

A falta de fronteiras entre razão e loucura é o pano de fundo de uma história famosa de Machado de Assis (1839-1908), que exerce no conto ‘O alienista’ sua pena crítica, montando um retrato ao mesmo tempo realista e irônico da emergente sociedade urbana brasileira no fim do século 19. Com esse conto, publicado na coletânea ‘Papéis Avulsos’, de 1882, Machado coloca em evidência um tema que até hoje fica escondido do debate público, já que os ditos loucos são mantidos reclusos por suas famílias ou afastados do convívio com internações.

A ideia de isolar quem está fora do pretenso padrão de normalidade desponta no conto de Machado como uma modernidade que reflete os avanços da ciência, orientada por uma falsa racionalidade, que jamais consegue se cercar dos acontecimentos. A dificuldade de fazer a razão triunfar é um elemento que pouco a pouco leva para o caos a trajetória de Simão Bacamarte, o médico alienista que instala uma clínica em Itaguaí, no interior do Rio de Janeiro.

Depois de construir a clínica e conquistar poder, inclusive com um ‘estipêndio’ aprovado pela Câmara Municipal para pagar o tratamento dos pobres, o alienista começa a dar sinais da própria loucura, promovendo cada vez mais reclusões de pessoas ao asilo, até que a população se revolta, ganhando a adesão das forças policiais e conseguindo dissolver o poder local. O conto adquire assim um contorno histórico das forças políticas que se enfrentaram na época para estabelecer uma nova ordem que culminou com o que hoje chamamos de República Velha.

Outro indicador do enfoque social é o caso do personagem que representa a nova burguesia no meio urbano – um fabricante de albardas (casacos e capas de chuva), que faz riqueza e constrói uma bela casa na cidade. Essa personagem gasta suas manhãs contemplando a beleza da casa, e à tarde coloca-se diante da janela para se exibir aos passantes. Machado caracteriza a suposta loucura desse novo capitalista como alguém movido pela imagem, algo que é tão comum nos dias de hoje e demarca o prazer de ver e ser visto.

O professor Alfredo Bosi, que tem um livro chamado ‘História concisa da literatura brasileira – editora Cultrix’, afirma que ‘O alienista’ também deixou para a crítica a discussão sobre seu gênero. Trata-se de um conto, mas é uma “quase novela, pela sua longa sequência de sucessos”, afirma. Para ler a história, o leitor não precisa comprar o livro. A obra completa de Machado de Assis está disponível para cópia no site Domínio Público, do Ministério da Educação: www.dominiopublico.gov.br.

Anúncios

Um pensamento sobre “Machado de Assis duvida dos limites entre razão e loucura

  1. Afinal, quais os liames entre a razão e a loucura. Fantástico a atualidade desse conto (ou novela) do bruxo da literatura brasileira.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s