Frases ao avesso de Drummond revelam verdades com humor

Drummond era reconhecido pelo valor de sua obra poética

O uso da linguagem falada ou escrita cumpre no dia-a-dia a função de esconder as coisas, em vez de revelar. É assim, por exemplo, quando nos vemos em uma situação de conquista amorosa. Em vez de mostrar ao outro o real desejo, criamos motivos que nos mantêm perto dele ou dela, mas sem desnudar as intenções, preferindo que a nossa intimidade seja alcançada pouco a pouco, na medida em que a pessoa demonstra reciprocidade às nossas ideias. Isso é o que chamamos de jogo do amor.

Mas no caso do livro ‘O avesso das coisas, aforismos’, do poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, o jogo proposto com a linguagem é justamente o contrário – revelar as coisas. O livro foi publicado originalmente em 1988, e era uma das várias obras inéditas que ele deixou ao morrer, um ano antes. O título é uma coleção em ordem alfabética de frases, pensamentos, que poderiam ser chamados de ‘máximas’, mas, como parecem estar pelo avesso, são ‘mínimas’.

O gênero literário dos ‘aforismos’ seduz os escritores desde os antigos moralistas e Drummond se propõe a tomar parte nessa tradição. Oscar Wilde também era mestre na arte. É dele a frase: “As piores coisas são feitas com as melhores intenções”. Fernando Pessoa teve contribuições: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. No caso de Drummond, o livro é um avesso dele próprio, já que ele se notabilizou por sua obra poética, que não deixa de ser o avesso de alguma coisa… “A poesia força as palavras a dizerem o contrário do que elas pretendiam”, afirma ele no livro.

Drummond confessa no prefácio o caráter desprezível da obra. “Andei reunindo pedacinhos de papel onde estas anotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor”. A obra é emblemática do lado humorístico do poeta, mas por sua franqueza, não deixa de representar o exercício do próprio escritor, que é revelar aquilo que o cotidiano esconde e abrir novos horizontes para o pensamento.

Ao ler ‘O avesso das coisas’, lembrei o tempo todo de uma frase de Drummond no livro ‘Confissões de Minas’, de 1944, que vale como dica para quem deseja aprimorar a escrita: “À medida que envelheço, vou me desfazendo dos adjetivos. Chego a ver que tudo pode se dizer sem eles, melhor que com eles”.

Confira algumas frases de ‘O avesso das coisas’:

Amor – Amar sem inquietação é amar sem amor.

Diabo – É cada vez mais difícil vender a alma ao diabo, por excesso de oferta.

Felicidade – Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.

Homem – O homem foi criado a imagem e semelhança do seu Criador, para agir ao contrário dele.

Pênis – O mérito do pênis é independente do mérito de quem o porta.

Sexo – O ato sexual começa por não ser um ato, mas uma convulsão.

Solidão – A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.

O avesso das coisas, aforismos,

Carlos Drummond de Andrade, ilustrações de Jimmy Scott, ed. Record, RJ, 170 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br.

Fotos: Divulgação

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