Mergulho no lado oculto da vida com Dalton Trevisan

Traficantes, viciados em drogas, pedófilos, prostitutas, assaltantes, homossexuais, maridos violentos, idosos abandonados, bêbados… Os personagens do enigmático e recluso escritor curitibano Dalton Trevisan são pessoas que levam a vida sem glamour e sobrevivem às tragédias do cotidiano marcadas pela violência, miséria, preconceito e desespero.

Em um dos últimos livros do escritor – ‘Violetas e pavões’, de 2009 –, essas histórias e personagens revelam o outro lado da vida, imersas em fatos que nos interessam quando se trata da pele do outro, exibida no jornal ou TV, mas que provocam repugnância quando se referem a alguém próximo.

Avesso a jornalistas, Trevisan dificilmente se deixa fotografar

Mestre do texto breve e conciso com uma pegada realista, o autor de mais de 30 livros reúne nesse título 22 contos sobre os bastidores do meio urbano, como se ele estivesse em cada esquina de Curitiba, que poderia ser qualquer outra cidade, espreitando a marginalidade e as vítimas do ódio, e tomando notas. Trevisan repete nesse livro a tradição das suas histórias sobre os excluídos da cultura, que o consagrou como o ‘vampiro de Curitiba’, título também de uma de suas obras mais famosas.

Em um dos contos de ‘Violetas e pavões’, um pai desnaturado e incestuoso abusa sexualmente da filha de cinco anos, segundo ele porque a esposa inventou de sair de casa todas as noites para frequentar um cursinho. Ao tentar justificar seu ato, o tal marido reproduz o que fazemos tantas vezes sem perceber – jogar para o outro a culpa sobre as nossas loucuras. Assim, o escritor tira do algoz a expressão que o aproxima do leitor – somos praticamente todos loucos.

No conto que dá título ao livro, uma prostituta, pronta para ir a uma clínica restituir sua virgindade, desmancha-se em elogios em uma carta ao seu cafetão, manifestando não só seu sentimento, mas de toda a miríade de bichas e prostitutas que a rodeia. O escritor quebra aquela visão do cafetão cruel e violento, levando o leitor para fora do senso comum, ou seja, fazendo-o pensar sobre ideias arraigadas e que dificilmente são colocadas em questão.

O fogo da cachaça e o fogo no corpo

Neste trecho do conto ‘Cachaça e Pamonha’, Trevisan mostra o calvário de uma mulher que trabalhava em um bar com o marido e acabou vítima da violência machista:

“Um ano e meio casados. Esse aí cuidava, sim, direto da cachaça. E o bêbado desgranhento me tocou fogo. Fez do meu lindo corpo uma boca de dor que gritava.

Ah, quem dera sumir pro meio do nada. Mas como, se não tenho recurso? Eu pudesse, nunca mais via esse foguista de gente. Todo o mal que fez não posso calar. Os vizinhos com medo não falam uma palavra. Eu falo, nada mais tenho a perder”.

Violetas e pavões,

Dalton Trevisan, Ed. Record, Rio de Janeiro (RJ), 2009, 170 págs.

Foto: Alberto Melo Viana/Divulgação

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