O discurso do oprimido na história de Anita Garibaldi

Retrato de Anita pintado por Joaquim R. Ferreira; obra pertence ao Museu Histórico Nacional

O discurso dos excluídos é dos aspectos mais interessantes da história brasileira. Em qualquer período, a evolução do País é rica de conflitos, violência e descaso com a dignidade humana. Na colonização, por exemplo, os poderes econômico e político se instituíram de forma autoritária, provocando a revolta de índios e escravos.

Desde essa época, a opressão provocou reações que se estabeleceram como poderes paralelos, como os quilombos, a Revolta de Canudos, o cangaço e a Revolta Farroupilha, no Sul. A exclusão da cultura oficial fez proliferar entre o povo um rico caldo de cultura, manifesto em expressões da língua, dos contos orais, das lendas e até da gastronomia.

João Felício dos Santos (1911-1989) foi um escritor que alimentou sua verve com a pesquisa sobre o discurso do oprimido. Ele é considerado precursor do romance histórico no País e assinou livros que viraram filmes famosos, como ‘Carlota Joaquina’, título de 1968 que foi para o cinema sob direção de Carla Camurati em 1995, Gamga Zumba (1964) e Xica da Silva (1976). Esses dois últimos foram dirigidos por Cacá Diegues, para quem João Felício escreveu de modo a criar uma espécie de “língua brasileira”.

Um livro de João Felício que condensa esse caráter de invenção da língua é ‘A Guerrilheira – O romance da vida de Anita Garibaldi’, lançado originalmente em 1979 e com segunda edição agora pela Editora José Olympio, que reedita a obra completa do escritor por ocasião do centenário de seu nascimento, em março de 2011.

O texto narra a trajetória de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Anita, ao lado do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, que foi um dos líderes da Revolta Farroupilha, movimento que inicialmente aglutinou descontentamentos dos estancieiros produtores de charque da Província São Pedro do Rio Grande do Sul e emergiu com ideais republicanos, contra a escravidão e demais políticas do Império. A revolta Farroupilha foi das mais longas: de 1835 a 1845.

Ao percorrer as páginas da história de amor entre Giuseppe e Anita, o leitor se depara com palavras e expressões que pertenciam ao universo da cultura daquela região na época, mas muitas vezes captando o sentido pelo contexto. “Não te acoquines amigo”, diz o estancieiro farroupilha ao companheiro, usando um termo genuíno no Sul, que significava “não se acovardar”.

A linguagem transporta o leitor no tempo e no espaço, dá uma dimensão do que teria sido aquela realidade, ainda que o escritor coloque sobre a pesquisa histórica elementos de sua imaginação para construir o romance, aspecto que chegou a colocar João Felício em conflito com o meio acadêmico, que não admitia a aproximação entre história e ficção.

A Guerrilheira – O romance da vida de Anita Garibaldi,

João Felício dos Santos, editora José Olympio, RJ, 2011, 384 págs., R$ 43.

Foto: Paulo Scheuenstuhl

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s