As primeiras aventuras do malandro nas letras

O professor Antonio Candido estudou a obra de Manuel Antônio de Almeida

As histórias que passam de boca em boca e compõem a tradição folclórica de um povo são para a literatura fonte de enredos satíricos, caricatos, carregados de humor. No caso do Brasil, o imaginário em torno da figura do malandro teve a palavra falada como suporte até que as letras colocassem esse personagem no plano da cultura formal.

O professor de literatura Antonio Candido escreveu no texto ‘A dialética da malandragem’ que o primeiro registro do herói às avessas é o romance ‘Memórias de um sargento de milícias’, de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). O escritor trabalhava no jornal Correio Mercantil, onde ouvia um companheiro de redação, antigo sargento no Rio de Janeiro, comandado por um major chamado Vidigal, que também é personagem do romance.

Almeida escrevia o suplemento literário do jornal, batizado de ‘A pacotilha’, e assim publicou a história em capítulos breves, em folhetins, sob o pseudônimo de ‘um brasileiro’. De linha popularesca e realista, o romance passava longe do tom predominante da literatura na época, ditado pelo movimento romântico.

Afeito às necessidades e contradições da pequena classe média carioca, Almeida preferiu o caminho do humor, compondo a história de Leonardo, filho de portugueses que buscaram o País em função da mudança da corte de D. João VI. O menino, rejeitado pelos pais sem caráter, é adotado pelo padrinho, um barbeiro, que mantém por ele uma admiração cega, colaborando sem saber para que o pequeno se transforme em um malandro de primeira ordem, que o escritor chama de “vadio-tipo”.

Leonardo segue assim uma infância sem regras e por conta de suas pequenas perversões o leitor vai dar boas gargalhadas. O enredo amarra um conflito após outro, navegando por histórias do cotidiano, contadas em tom de crônica e movidas por sentimentos mesquinhos, como o desejo de vingança e o prazer de caçoar do outro.

No caso de Leonardo, sempre há alguém disposto a protegê-lo, o que permite que ele se dê bem em quase todas as situações. Pode parecer que há uma distância entre essa história e a realidade dos dias atuais, mas o empenho que empregamos nas relações de trabalho e nas redes sociais é movido pelo mesmo desejo de proteção, que agora ganha um significado politicamente correto para encobrir o velho desejo “de se dar bem”.

O alcance do romance de Almeida não foi completamente compreendido em sua época. Mas no século seguinte a obra virou objeto de interesse dos escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre outros, que retomaram o personagem, movidos também pelo desejo de conhecer e especular sobre a alma brasileira e sua linguagem.

O livro é o 54º mais vendido no site Estante Virtual. O leitor tem ainda a opção de copiar o texto sem custo no site Domínio Público, do Ministério da Educação (www.dominiopublico.gov.br).

 

Memórias de um sargento de milícias,

Manuel Antônio de Almeida, editora Best Bolso, 238 págs.

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