Jogo de palavras e significações com Ademir Assunção

Foto que o escritor divulgou em seu blog na sexta-feira, 3 de junho, ao comemorar 50 anos

O que a princípio é apenas um jogo de troca de palavras lança o leitor em uma reflexão sobre si mesmo, capaz de abrir a realidade para novas ideias. O romance ‘Adorável criatura Frankenstein’, de 2003, do escritor e jornalista paulista Ademir Assunção, propõe esse movimento, que muitas vezes se parece com um mergulho nas coisas banais e esquecidas do inconsciente humano.

O protagonista da história é um escritor que se chama Eu. E os outros personagens são: Você, Ele, Ela, Eles, Elas, Nós e Vós. Assunção substitui, assim, o nome pelo pronome e coloca esses personagens em uma narrativa em terceira pessoa, provocando um efeito de estranhamento inicial no leitor. “Eu levantou a cabeça e olhou novamente para o espelho” – nesta frase, o sujeito e o tempo verbal estão em dissonância, é preciso recriar o sentido, adotando o pronome como nome, para seguir o livro.

“Nada é estranho quando a estrutura da realidade se abre, meu chapa”, diz o motorista de táxi para Eu. O jogo proposto por Assunção, a cada capítulo, soa para o leitor como uma quebra da realidade da linguagem, que permite encontrar o verdadeiro indivíduo escondido no castelo de suas verdades até então inabaláveis, de suas ilusões.

No contexto das significações, Assunção coloca o Eu no lugar do outro e trata dessa relação nos dias de hoje, marcada pela invisibilidade do outro, uma espécie de cegueira branca. O indivíduo na cultura ocidental busca o sentimento de autonomia e independência, valorizando seu ego, achando que o outro “é um monte de lixo”.  As imagens criadas pelo romance permitem assim uma aproximação com a ideia de que o outro é importante nas realizações do Eu.

Assunção explora também um sintoma da cultura contemporânea que é a realidade fragmentária, monstruosa, e por isso a referência a Frankenstein, das coisas sem continuidade fora do campo da razão. A narrativa tem o tom de uma síndrome de fragmentação, uma colcha de retalhos feita com pedaços de produtos da cultura que restam na memória e foram resgatados de músicas, romances, jornais, revistas e personagens da mídia.

Nas páginas de Assunção, Patolino, Pateta, Pernalonga, Antônio Carlos Magalhães, a dançarina Carla Perez, Marilyn Monroe, Caetano Veloso, João Gilberto, entre outros, convivem em uma festa sem o compromisso com o realismo. Como os personagens principais, são todos projeções fantasmagóricas que habitam os pensamentos não verbalizados.

Neste diálogo entre Eu, Ela e Você, o escritor revela ao leitor como os fatos da linguagem constroem a realidade e um personagem se define pelo outro:

– Estou começando a achar algo estranho nesta história. Não sei. Os nomes. Eu me chamo Eu. Você se chama Ela. Ela se chama Você.

– O que há de estranho nisso? Há muitos Eus, Elas e Vocês por aí.

 

Adorável criatura Frankenstein,

Ademir Assunção, Ateliê Editorial, São Paulo, 2003, 232 págs.

Blog do escritor: http://zonabranca.blog.uol.com.br/

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