Vestígios de um crime no século 19 à luz de velas

Poe é considerado o pai do conto policial

Os ventos uivantes na cidade e a falta de luz por duas noites seguidas me deram o clima mórbido o suficiente para procurar algo para ler à luz de velas. Eu buscava não apenas uma história assustadora, mas que tivesse um veio literário e psicológico. Encontrei assim na estante, com a lanterna, o pequeno livro ‘Assassinatos na rua Morgue e outras histórias’, de Edgar Allan Poe (1809-1849), escritor norte-americano que é considerado o pai do conto policial moderno.

Entre todas as histórias do autor, muitas delas com traços góticos e de terror, essa é a que efetivamente projetou o gênero. Literalmente, o conto é um roteiro nonsense de um “orangotango fulvo [amarelo] das ilhas da Índia Oriental”, solto de madrugada em Paris com uma navalha na mão. A tal besta-fera invade um apartamento onde moram mãe e filha e faz um estrago absurdo, deixando a polícia desnorteada.

O narrador e seu amigo, C. Augusto Dupin, um amante de livros, investigam o crime paralelamente à polícia e descobrem o que aconteceu com base na leitura de pistas, vestígios e sinais, seguindo o método científico e de lógica dedutiva, que a polícia de então desconhecia, ou pelo menos desprezava.

Esse conto foi publicado originalmente em 1841, em uma revista chamada Graham’s Magazine – e é precursor do famoso Sherlock Holmes e seu companheiro Dr. Watson, lançados pelo medico e escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle em 1887, em história com o título ‘Um estudo em vermelho’.

Em ‘Os crimes da rua Morgue’, Poe reveste a história com um conteúdo filosófico sobre a análise de fatos, definindo o que ele pensa sobre o método investigativo. Ao mesmo tempo em que cria o gênero, o escritor proporciona um conhecimento para que as gerações que o sucedem reflitam e recriem a trama policial, como fez Doyle.

Outra marca do conto é a da ‘intertextualidade’, ou diálogo entre textos de diferentes gêneros, recurso que é bastante explorado pela literatura contemporânea. No caso do conto de Poe, essa característica se materializa por meio de textos em forma de notícias da Gazeta dos Tribunais, que ele insere no conto.

Essas notícias, assim como a investigação de detalhes que ocorre depois de sua leitura, conferem um caráter de realismo ao texto, buscando formar uma imagem verossímil da situação um tanto absurda. Depois de ler o conto madrugada adentro, experimentei olhar pela janela a noite escura. A imagem do orangotango raivoso projetada pelo imaginário era quase insuportável.

A investigação de vestígios revela que as manifestações esquisitas do ser humano estão nos detalhes, no que passa despercebido. É por isso que não existe crime perfeito, não é possível cometer qualquer ato sem deixar rastros. A leitura de sinais é também praticada na psicanálise para encontrar hipóteses para as reais motivações dos desejos, escondidas no discurso do paciente.

Assassinatos na rua Morgue,

Edgar Allan Poe, editora L&PM, 2002, 156 págs.

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Um pensamento sobre “Vestígios de um crime no século 19 à luz de velas

  1. A coluna ficou perfeita. Exatamente como havia me contado…. ventos uivantes, ler à luz de velas, imagem do orangotango raivoso na janela…. Hum, fiquei com medo. Parabéns!

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