Bataille antecipa angústias da guerra em novela de 1935

Bataille pesquisava a associação entre desejo e violência

A capacidade dos escritores de perceberem potenciais conflitos na sociedade, antecipando-se a fatos trágicos como guerras e outros atos de violência, é algo que faz parte da história da literatura. Isso acontece não porque o escritor seja dotado de um sexto sentido, mas porque ao transpor a realidade para as letras ele lida com sentimentos e expressões que estão à margem da percepção comum do cotidiano.

Esse exercício está presente na obra de Georges Bataille (1897-1962), escritor francês pouco conhecido no País, que dedicou sua produção à pesquisa sobre o desejo humano e suas relações com a crueldade, a violência. Na novela ‘O azul do Céu’, escrita em 1935, Bataille antecipa a angústia e sofrimento de quem pouco tempo depois enfrentaria a Guerra Civil Espanhola (1936 a 39), que culminou com a instalação do regime fascista liderado pelo general Francisco Franco, e a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Esse texto foi rejeitado pelo autor por mais de 20 anos e só foi publicado em 1957 porque Bataille atendeu ao pedido de amigos que apreciaram a obra. Bataille acreditava que a novela havia sido superada pela realidade: “Diante da própria tragédia, como prestar atenção aos seus sinais anunciadores”, pergunta ele no prólogo.

Nas páginas de ‘O azul do Céu’, o narrador Henri Troppmann passa por Londres, Paris, onde morava, Barcelona e Frankfurt, tomado por um sentimento de angústia e mal-estar, e pela busca de ocupar um vazio interior que só faz purgar o que ele tem de ruim para as mulheres, amantes e prostitutas que o rodeiam.

Foto de 1933 de Georges Brassaï

Henri é um francês rico, intelectual, que abandona seu ideal comunista diante da Europa que emerge em meio a uma onda nazi-fascista. O alcoolismo e a vida mundana, a libertinagem, a prostituição tornam-se ingredientes de uma tragédia que se anunciava na confusão de objetivos da ação dos comunistas e nos tambores irados das crianças nazistas em Frankfurt.

A história começa em Londres com Henri ao lado de Dirty, sua mais intensa paixão. Ambos estão bêbados em um quarto de hotel, ele sangrando de um ferimento e ela urinando na própria cadeira. Mas, apesar da paixão, Henri é impotente no relacionamento sexual com Dirty e o casal assume um caráter absurdo quando ela descobre que ele é necrófilo. Dirty tenta simular a morte para excitar o amante.

Henri bebe o tempo todo, fica doente, à beira da morte, mas não larga a bebida. Com o mergulho no álcool, seu corpo doente se transforma em um sintoma daquele momento histórico, de falta de perspectiva para a luta democrática. É como se houvesse uma coincidência entre os sentimentos de Henri e a paixão pela morte expressa nas entrelinhas do discurso dos líderes reacionários da guerra.

O azul do Céu,

Georges Bataille, editora Brasiliense, SP, 1986, 171 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

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